Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 295
Data:
30/11/2001
Capa | Edições anteriores| Assine já | Fale com a redação
Página visitada: 1300425 vezes
» Índice
» Editorial
Um peso, duas medidas
» Turismo
Uma viagem de sonho é o que proporciona o Explorer of the Seas, o maior navio de cruzeiro do mundo
» Paladar
Uma visita fantástica à região de Champagne, coração dos mais famosos vinhedos do mundo
» Autos
Ferrari 360 Spider sai da fábrica de Maranello com motor V8, 400 cavalos e 8500 rpm
» Triangulo
Gratz surpreende adversários ao apoiar a lei que extingue a imunidade parlamentar
» Boca Miuda
Sueli em campo
Comportamento

Uma nova droga entrou no circuito de danceterias, fazendo 122 mortos em todo o mundo e deixando atrás de si um rastro de comas e estupros. E está só a um website de distância. O GHB, ou gama-hydroxibutirato, conhecido como Liquid X, tomou o mundo de assalto. Os fãs do GHB dizem que é uma droga verdadeiramente democrática que incendeia qualquer danceteria e garante sexo fantástico. Os adversários apontam para o aumento súbito de pacientes em coma e de alegados estupros envolvendo GHB. Os legisladores não sabem como controlar uma substância perigosa que qualquer pessoa com uma ligação à Internet pode comprar. No Brasil ela ainda é pouco conhecida.  
 
Mehtin não sabia o que fazer com a encomenda. Não conhecia a droga que o seu melhor cliente tinha pedido: GHB. Mas, detentor de bons contatos, Mehtin obteve ajuda. A resposta era melhor do que ele podia ter imaginado: GHB afinal era um narcótico barato que podia ser encomendado pela Internet, entregue pelo carteiro em casa e feito na mesa da cozinha. Melhor ainda, estava sendo muito procurado nas festas e era regulado por uma legislação virtualmente inaplicável. Facílimo, pensou Mehtin.  
Foi até aos websites que vendem os componentes, encomendou-os com cartão de crédito e esperou para ver se era suficientemente bom para ser verdade. Era. Ao fim de uma semana as embalagens chegaram. “É tão fácil de fazer”, exclama. Ele lembra-se do seu prazer ao misturar os três componentes e ao ver a pequena nuvem diáfana exalar da tigela em que os misturava. “Gastei cerca de 110 euros com os produtos”, explica, “e posso vender 180 cápsulas por 815 euros”.  
Enquanto Mehtin arrecada um lucro maneiro, os médicos no outro extremo desta história vão ter de limpar a casa. E que confusão vão encontrar!  
Seis em coma - Os paramédicos no serviço de ambulâncias Zaandam, na Holanda, nunca viram nada como isto. Num único fim-de-semana seis menores apresentaram sintomas comatosos, todos depois de terem participado de uma mesma festa de praia. A droga, que durante dois anos estivera restringida a um pequeno número de veteranos da noite, invadiu a cena noturna em geral.  
“É esquisito”, confessa Cor Koemeester, chefe de equipe de ambulâncias em Bloemendaal. “No ano passado levamos um paciente para o pronto-socorro e colocamos-lhe um tubo de oxigênio na boca, que é um procedimento comum com as vítimas de coma. Duas horas depois o menor acordou e disse ‘onde é a festa?’, como se nada tivesse acontecido. As danceterias na praia até contrataram a sua própria equipe de ambulâncias que sabem detectar as vítimas e intervir quando necessário”.  
Parte afrodisíaco, parte narcótico letal e cada vez mais a droga du jour para a galera dançante, o GHB (gama-hidroxibutirato) é uma das drogas mais controversas da Europa. Embora não seja nova – foi desenvolvida pela primeira vez em 1961 pelo cientista francês Henri-Marie Laborit –, a sua entrada dramática na cena noturna dominante e a sua face de Jano de benefício e dano geraram confusão entre as autoridades e uma falsa sensação de segurança entre os seus consumidores.  
Inicialmente tratada como um sal orgânico benigno, o GHB foi usado como anestésico, antidepressivo e na cura da insônia, bem como para relaxar os músculos. Quando ainda desfrutava da aprovação da Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, foi incluído na categoria acessível aos consumidores de alimentos de saúde. Depois disso, o GHB foi incluído, em fevereiro de 2000, no escalão I das drogas nos EUA.  
Os seus componentes estão presentes naturalmente no corpo, especialmente no cérebro, nos rins, no coração, em algum tecido gorduroso e nos músculos em contato com o esqueleto. Ao receber entre 0,5 e 1,5 gramas de GHB, o sistema nervoso central é anestesiado, originando uma sensação de calma, bem-estar e relaxamento. Desaparecem os medos e as inibições, substituídos por tagarelice e apetite sexual. Os efeitos secundários incluem tonturas, dores de cabeça, náuseas, perda de memória e sonolência. Com dois gramas o consumidor pode cair num sono profundo durante várias horas, ao longo do qual será difícil acordá-lo. Com mais de dois gramas pode levar à overdose, perda de consciência e graves dificuldades respiratórias.  
Indetectável - Outra característica do GHB é a sua solubilidade na corrente sanguínea, tornando-o indetectável ao fim de seis horas. Klaus Lustaf, do Instituto de Medicina Legal holandês, organização que conduz testes e análises laboratoriais, explica: “Tem uma permanência no organismo muito curta; ao fim de quatro ou seis horas desapareceu. Outro problema é que o GHB também é produzido pelo corpo, é um composto natural no corpo e, portanto, existe sempre um nível residual dele. É muito difícil discernir entre esse nível residual e o GHB que é ingerido.”  
Para complicar ainda mais as coisas – de uma perspectiva médica, social e legal –, o GHB pode ser criado no corpo pela ingestão de outros compostos como o GBL (gama-butirolactoma). Ilegalizar o GHB pode, portanto, resultar em muito pouco dada a quantidade de componentes disponíveis no mercado. E visto que cada um destes componentes está sujeito ao seu próprio conjunto de regras de dosagem, errar na dose é uma possibilidade muito real. A variedade feita em casa é, portanto, propicia a enganos; as consequências são mortais.  
“O butanodiol, por exemplo, é um composto que o corpo converte em GHB. O perigo (com todos estes compostos) é o que o nível de GHB que eles produzem uma vez dentro do corpo não está definido”, explica Klaus Lustaf. De modo que quem pensa que já domina a dosagem de GHB nem por isso está qualificado para saber como dosar os compostos que o criam.  
“Eu sei o que estou fazendo”, diz Mehtin. Ele está em Dance Valley, um grande acontecimento techno na Europa. “Mas é preciso ter cuidado. A proporção dos ingredientes é muito importante”. Como qualquer anestésico, a segurança do GHB depende de cálculos exatos que envolvem o peso do corpo, o metabolismo, a pressão sanguínea, a sensibilidade, etc.  
Com álcool é pior - As margens de erro têm de ser limitadas, o que é improvável se o material for misturado na bancada da pia da cozinha. E se ingerirmos álcool com GHB, o mais provável é acabarmos no hospital.  
O que o paramédico Cor Koemeester testemunhou, quando o seu paciente acordou perguntando onde era a festa, foi um efeito do GHB naqueles que misturam a droga com álcool, num coquetel que deixa os azarados num estado comatoso. Estranhamente, este risco, do tipo roleta-russa, não afasta as pessoas. Pelo contrário, os fãs do GHB descrevem-no como a cura milagrosa que melhora a sua vida sexual, os anima, os faz amar a vida, o universo e tudo. Um consumidor satisfeito escreveu, no site onde tinha encomendado a droga: “Como cura para o stress, o GHB está muito à frente do álcool. Eu sofro de ataques de ansiedade e um pouco de GHB faz-me sentir completamente normal outra vez. O lado sensual/sexual é um grande bônus! Obrigado por mudarem a minha vida.”  
E ele não está só. Muitos outros descrevem as qualidades quase enteogênicas da droga: O GHB “liberta a alma”, “afasta a miséria e dá motivação” e “devia vir na água canalizada!” Eles descrevem os conhecidos efeitos antidepressivos da droga, pelos quais foi, afinal, inicialmente usada.  
Os aficcionados do GHB, especialmente os que consomem regularmente desde a sua primeira aparição generalizada no mercado há cerca de três anos, dizem que a má publicidade em torno da droga é disparatada e, como seria previsível, que a decisão do governo norte-americano de criminalizar o GHB era desnecessária. Um entusiasta escreve: “Como insomníaco de toda a vida, finalmente encontrei uma coisa que resolvia o meu problema, mas os imbecis do governo federal baniram-na! Este produto foi vítima não só de algum uso irresponsável, mas igualmente de uma campanha de terror irresponsável por parte do governo e da comunicação social.”  
Performance sexual - Mehtin traça um perfil dos seus clientes: principalmente fisioculturistas que, por causa dos esteróides anabolizantes que consomem, não podem beber nem ingerir os comprimidos mais habituais nas festas. Os seus outros clientes são casais que usam a droga para obter maior performance sexual. Quando os ravers perceberam que o GHB era um substituto barato para o ectasy, a facilidade da sua obtenção fez com que o GHB disparasse na popularidade. Como diz o cliente online: “Quatro dias depois de ter feito a minha encomenda, tinha-o nas minhas mãos. Tão indolor. Para uma empresa de encomendas por e-mail, isto deve ser uma espécie de recorde! Continuem a santa obra.”  
Os peritos esperavam que o entusiasmo inicial, na época da primeira aparição do GHB no mercado, fosse breve. Marthin Sijes, investigador e consultor da Clínica de Drogas Bijder (na Holanda), diz: “Uma droga nova começa devagar e populariza-se entre algumas pessoas, mas o GHB era tão assustador que muitos jovens holandeses normais não o querem experimentar”.  
Este otimismo parece deslocado. O GHB é visto como o novo ectasy, a nova droga animadora que corre as danceterias e as raves de toda a Europa. Os festivais de música em especial funcionam como um imã para os recém-chegados ao GHB. Muitos dos que tomam a droga escrevem um “G” na palma das mãos com uma esferográfica para que as outras pessoas não se preocupem nem chamem as autoridades. O recente festival Techno Dance Valley, às portas de Amsterdã, assistiu a numerosos casos, com ravers estendidos no chão, com um grande “G” na mão.  
Jellinek é um instituto holandês orientado para a investigação, prevenção, reabilitação e aconselhamento sobre drogas e toxicodependência. Roel Kersemakers, responsável pela prevenção do Jellinek, diz: “O dia da rainha (um feriado nacional holandês em abril) foi impressionante. Levamos diversos pacientes comatosos para o hospital, felizmente ninguém morreu. Houve um que quase perdemos – tivemos que reanimá-lo três vezes de morte clínica e ele só ficou livre de perigo seis horas depois.” Até aqui, a Holanda ainda não assistiu a nenhuma morte relacionada com GHB. Por enquanto. Contudo, Kersemakers acrescenta: “Estamos à espera da primeira morte. É só uma questão de tempo.”  
Emanuel Sferios, diretor-executivo do Dancesafe, uma ONG holandesa que fornece conselhos aos jovens, está igualmente preocupado: “Temo que venhamos a assistir a muitas mais overdoses de GHB. É atualmente uma grande preocupação.”  
Até a data os números oficiais relativos a dezembro de 2000 indicam que, no total, já morreram em todo o mundo 122 pessoas em acidentes relacionados com o GHB, desde os primeiros dias da droga em 1995 – a grande maioria das quais nos EUA. Cerca de metade destas estão nas listas da Drug Enforcement Agency (DEA), a Agência de Combate à Droga norte-americana: as suas autópsias foram examinadas por um médico da DEA, embora outros casos não incluídos nas listas da DEA ainda sejam considerados como estando muito provavelmente ligados ao GHB. As mortes na Europa estão entre quatorze e dezoito, embora seja certo que mais se vão seguir, agora que o GHB se popularizou.  
Morte chocante - Um caso em particular foi decisivo na alteração da legislação dos EUA sobre esta droga. A morte chocante de Samantha Reid, em 1999, uma mulher americana cujos quatro assassinos tinham tentado usar GHB para violar a ela e a outra moça, demonstrou a facilidade com que o GHB reage ao álcool. Reid morreu num estado comatoso, sufocada no seu próprio vômito, a causa de morte predominante nas tragédias relacionadas com GHB. Em fevereiro de 2000, Bill Clinton assinou o “Decreto de proibição da droga da violação de Hillory J. Farias e Samantha Reid de 2000”, ordenando ao procurador-geral que acrescentasse o GHB às substâncias de escalão I no prazo de sessenta dias.  
Os estados comatosos que o GHB causa quando misturado com álcool atingem um nível próximo da morte. “Uma vez eu estive apagada durante cinco horas”, afirma uma jovem de Amsterdã, e “depois acordei e estava tudo bem”. Nos meios do GHB, aconselha-se mesmo aos consumidores que escrevam o “G” nas mãos com uma esferográfica, na convicção de que os estados de coma induzidos pelo GHB são breves – um sinal simbólico de complacência que convida à violação e à possível morte.  
“Tenho medo”, diz Petra, namorada de um homem de Roterdã chamado Peter, conhecido pelos seus excessos de GHB. “Ele tem entrado em coma quase todas as semanas desde que toma GHB. Estou tão preocupada que uma dessas vezes ele não acorde. Mas ele não pára e cada vez mais pessoas nossas conhecidas a consomem”.  
Medos e inibições - Devido ao efeito do GHB sobre os medos e inibições, ele também se tornou conhecido como a droga para violações do novo milênio. Contudo, quase não há nenhuma acusação bem-sucedida relativa a violação induzida por GHB. O detetive Jan Staps, profissional das Brigadas de Narcóticos de Roterdã, diz: “Vemos cada vez mais casos e estamos atualmente investigando quatro, mas em nenhum deles temos acusação. É a ponta do iceberg; gostaria que pudéssemos ser mais pró-ativos na investigação do GHB, mas estamos demasiado ocupados.”  
O disc-jockey Eric começa a sua subida à área VIP de um famoso clube de Amsterdã, para a cabine de DJ da qual domina a multidão festiva da cidade. Os seus olhos são selvagens e brilhantes; um grupo de meninas animadas saúda-o, rodeando-o como as fãs fazem às celebridades. Ele agarra-as e abraça-as, apertando-as com energia sexual. Alguém lhe pergunta o que é que quer beber; ele volta-se a sorrir: “GHB”.  
As suas moças já estão rindo, tirando as cápsulas dos seus esconderijos (quase sempre na roupa interior e nos orifícios), nos quais transportaram a droga através da barreira dos porteiros. Todos a consomem, passando pelo pequeno grupo de amigos, a elite da party people da cultura de vida noturna de Amsterdã. A batida de pancadas de extremo hard house no esterno impele todos à dança. O DJ Eric dança e escuta nos seus headphones, enquanto goza o êxtase. Os olhos aumentam assim que o GHB atua.  
Eric detecta uma garota que nunca viu e convence-a experimentar o GHB. Ela aceita, caindo numa dormência graciosa enquanto a droga a envolve, semiconsciente. Eric vê a sua desorientação, pega-a e leva a boca ao seu pescoço como um vampiro faminto. Ela gosta e acompanha-o a uma festa tardia no apartamento dele. Antes de a noite terminar, terá dormido com Eric e com três outros homens. Não terão sido usados preservativos.  
Não se trata, contudo, de um caso isolado. Recentemente, o Conselho Consultivo da Polícia Regional de Amsterdã, um departamento que emite avisos e dá informação aos detetives na área, avisou os detetives da Brigada de Narcóticos de Roterdã que “o GHB é uma ameaça crescente e está sendo empregada em crimes de natureza sexual com uma frequência cada vez maior”.  
Problema maior - O detetive Jan Staps viu com os seus próprios olhos o aumento do uso do GHB. “Recebemos recentemente um memorando que nos avisou do aumento do GHB”, diz, “é uma das grandes prioridades, mas eles (chefes da polícia e decisores políticos) não querem admitir que há um problema maior do que aquilo que vemos.”  
Uma estatística recente na revista “Glamour” indica que 19% das mulheres que respondem conhecem alguém próximo delas, ou elas próprias, com uma experiência sexual negativa envolvendo GHB. Essa confissão aponta para a natureza incongruente do GHB em crimes de natureza sexual: as suas vítimas por vezes tomaram a droga de livre vontade e declararam que, no momento, houve um consentimento nebuloso; uma estranha aceitação do seu destino.  
“Não sei o que aconteceu”, explica Mirta (usando um nome falso), ao contar a sua experiência. “Mas sei que ele me ofereceu um suco de laranja com um sabor esquisito e que, de repente, estou tendo relações sexuais com este cara, coisa que nunca teria feito em nenhuma situação. Tenho certeza de que foi GHB.” Quando lhe perguntamos se ela tinha apresentado queixa-crime, abana a cabeça negativamente, uma resposta comum nas mulheres que tiveram esta experiência. Temem que a sua queixa seja arquivada; que, de algum modo, tenham responsabilidade.  
Este medo é confirmado por Martin Sijes, da Clínica de Drogas Bijder: “Quando se excitam, isso é responsabilidade delas. Não acho que seja violação. O tipo secundário – o das bebidas alteradas, por exemplo – não acontece muitas vezes.”  
Jan Staps discorda: “Isso é absurdo. É violação, mas serve para ver a mentalidade típica que impede as mulheres de apresentarem queixa.”  
Missão impossível - Os gerentes de clubes e os porteiros, que deviam estar tentando controlar a situação, consideram a tarefa quase impossível. “É o novo ectasy, não há dúvida”, diz um grande porteiro marroquino que guarda a porta no mesmo clube de Amsterdã onde Eric é DJ. Reconheça-se que muitas danceterias querem evitar a reação pública que o GHB irá suscitar se ocorrerem mortes, violações e outros crimes nas suas instalações. Temem – como muitas casas na Europa – o que sucedeu em Londres, em superdiscotecas como a Home, que não controlaram o uso e abuso das drogas. Mas todos afirmam que pouco há a fazer quanto ao GHB.  
O porteiro atarracado resmunga quando o tema GHB, e especialmente o seu defensor mais visível na danceteria, o DJ Eric, surgem. “Odeio este cara, já lhe disse que lhe partia os dedos se o apanhasse outra vez com GHB”. Quanto ao uso de GHB pelos clientes habituais de danceterias: “Tentamos controlar, mas é quase impossível. Trazem-no em recipientes para lentes de contato e as moças escondem-no na vagina ou nos sutiãs, onde não podemos procurar. E olhe, explica ele enquanto agarra as minhas mãos, “aqui no clube não podemos ver quando as pessoas o consomem”. A sua mão, um punho fechado, dá-me uma bebida enquanto a outra mão passa quase imperceptivelmente sobre o copo. Ele abre-a e revela a cápsula de GHB, um tubo quase do tamanho de um dedo mínimo. “A dificuldade é esta. Não o vemos.”  
Este clube undergroundd é o parceiro ideal no combate ao uso ilícito de GHB: controlar as moças quando saem; obrigá-las a sentar-se e beber água com açúcar; prestar atenção aos clientes quando entram; perceber quem são os namorados e estar de olho neles no estacionamento. “É aí que acontece a maior parte dos problemas”, nota o porteiro.  
Woodstock 69, um clube de praia na costa holandesa, foi levado a pendurar uma placa para avisar os seus clientes do perigo da droga: “GHB + álcool = coma”, lê-se. Este tipo de avisos é incomum na Holanda: o ectasy nunca suscitou esta resposta dos clubes. Mas foi do Woodstock 69 que vieram seis casos de coma que acabaram na ambulância de Cor Koemeester.  
“Seis pessoas é demais e nós estamos tentando fazer alguma coisa a respeito do assunto”, diz Laurette de la Porte, dona do Woodstock 69 – um sentimento que a maioria dos clubes partilha, mas não todos.  
Locais escondidos - “Há donos de clubes que não querem contornar o problema”, declara o porteiro marroquino em Amsterdã, indicando com isso o fato que muitos já conhecem: há clubes que não restringem o GHB, o ectasy ou qualquer das outras drogas que os seus clientes usam; que fecham os olhos às verdades mais sombrias do GHB; que, na verdade, espalharam que são o local aonde ir para usar GHB. São os locais escondidos do GHB, onde se encontram os piores excessos da droga: jovens chapados, espalhados à volta da pista de dança; GHB passado de mão em mão; sexualidade transbordante de corpos suados que se apalpam nos cantos. O poder do GHB é aí mais forte e os seus utilizadores tornar-se-ão provavelmente mais numerosos à medida que o GHB se espalha a círculos sociais mais vastos.  
Tudo isto causou as necessárias dores de cabeça a quem tenta fazer aprovar e aplicar leis. O fato de se poder obter componentes ou subcomponentes do GHB na web não facilita nada as coisas. Houve algum avanço: os Biogenesis Laboratories, os produtos químicos Pharmacon e outros fizeram um negócio expedito ao vender GHB ao litro na internet, mas as novas normas impedem agora a sua forma pura de ser vendida na web não facilita nada as coisas. Houve algum avanço: os Biogenesis Laboratories, os produtos químicos Pharmacon e outros fizeram um negócio tranquilo ao vender GHB a litro na Internet, mas as novas normas impedem agora a sua forma pura de ser vendida na web. Claro que isto não impede que, em vez dele, se encomendem os componentes que o constituem. Os EUA criminalizaram o GHB no início de 2000 ao atribuírem-lhe um status de escalão I, definindo o GHB como uma droga com grande potencial de viciação e destituída de qualidades médicas. Curiosamente, o GHB recebeu posteriormente uma segunda categorização como escalão III, o que o define como uma droga com baixo potencial de viciação e dotada de propriedades medicinais. Isto devido à Orphan Pharmaceuticals ter pedido para comercializar o GHB sob o seu nome genérico oxibato de sódio para tratamento da narcolepsia e das desordens do sono.  
A mesma ambiguidade legal é visível em alguns outros países. De modo a evitar a autocontradição pela dupla classificação do GHB na legislação relativa a narcóticos, os pragmáticos holandeses fizeram uso de um vazio legal sutil.  
Lei do ópio - Habitualmente os narcóticos e as drogas recreativas estão abrangidas pela lei do ópio e, como tal, não são legalmente reconhecidas como tendo propriedades medicinais. O uso e abuso destas drogas é completamente ilegal. Na Holanda, todavia, o GHB é um medicamento não registrado e, assim, está sujeito à Lei de Provisão de Medicamentos – uma lei que cobre produtos farmacêuticos.  
Ainda se podia comprar legalmente GHB na Holanda em 1996, em certos locais. Mas quando uma série de casos de estados de coma foi registrada nesse ano, o governo holandês criminalizou o uso de GHB – mas, de forma bastante interessante: como “delito econômico”. Em outras palavras, quem fizesse e tomasse GHB transgredia a Lei de Provisão de Medicamentos e, por definição, fazia-se passar por farmacêutico. Não por traficante... Mas quem tivesse uma receita médica ainda podia comprar GHB num balcão de farmácia.  
Assim foi até o final de julho de 2001. O que entretanto mudou foi que quem transgride a lei relativamente ao GHB pode agora enfrentar uma sentença de prisão até seis anos ou uma multa de 45 mil euros.  
Dureza variável - Outros países, como o Japão, a Finlândia e o Canadá, seguiram este exemplo em formas de dureza variável. A maior parte dos países, especialmente os da Europa, parece aceitar que o GHB tem qualidades medicinais, mas também deseja proteger o público do GHB doméstico, feito para fins recreativos. Parece que os europeus estão um pouco mais à vontade relativamente ao GHB do que os Estados Unidos, onde a “guerra às drogas” tem um perfil muito mais visível nos meios de comunicação social.  
Na verdade, a União Européia chega ao ponto de considerar o GHB como relativamente inofensivo: O Centro Europeu de Monitorização de Drogas e Toxicodependência avaliou o GHB. O CEM formulou o seu parecer sobre o GHB e recomendou que este não fosse considerado substância perigosa. Não vemos razão para proibi-lo, pelo menos de acordo com as linhas de orientação do CEM. Não será criminalizado em toda a Europa, mas os países podem tomar essa decisão individualmente.”  
Os defensores dos benefícios medicinais partilham esta opinião, fazendo notar que o GHB é um sal produzido naturalmente no tecido muscular: banir o GHB significa banir as importações de todos os alimentos com carne, uma premissa ridícula.  
Por aqui tudo bem, mas este estatuto legal, algo vago, do GHB afetou por sua vez a linha oficial de comunicação do governo holandês. De forma não oficial, existe uma atitude doofpot (não mencionada e não mencionável) relativamente ao GHB – tem havido uma impressionante falta de atenção midiática e de educação explícita relativamente a esta nova e potencialmente perigosa droga. Oficialmente, a política chama-se “prevenção secundária”, na qual os consumidores das ruas e os produtores são chamados para junto dos organismos que tratam das novas drogas e dos seus efeitos.  
Esta política declara que, em vez de amplificar a mensagem de uma nova droga para um público mais vasto, os responsáveis de saúde devem deslocar-se aos clubes, falar com os jovens que consomem as drogas e ouvir as suas experiências para detectar formas perigosas. É, no entanto, bizarro que ao colocar-se nos principais laboratórios que testam as drogas – Trimbos, Delta Lab e Sistema Monitorizador de Combate à droga (DIMS) –, sob a jurisdição do Ministério da Saúde e não do Ministério da Justiça, os consumidores e traficantes tenham um serviço anônimo no qual podem testar, discutir e receber informação sobre as drogas que usam.  
Alerta vermelho - “Nós somos a agência coordenadora do DIMS”, diz Hank Maurits, assessor de imprensa. “A questão é que nós testamos drogas, monitoramos o mercado para o Ministério da Saúde e não para o Ministério da Justiça. Se entendermos que a droga é perigosa, podemos fazer folhetos, podemos dar o alerta vermelho. Todas as amostras são anônimas e nós trabalhamos para os consumidores. Temos oportunidades de ouvir da boca dos consumidores o que se está passando no mercado. O GHB é tão recente que nós ainda não temos um folheto a respeito dele.”  
Mas um efeito secundário disto é que os traficantes de droga – aparentemente cooptados para trabalho com o DIMS, o Jellinek, ou outras agências de trabalho na rua – usem o serviço para se assegurarem de que o GHB que fabricam é puro e tem elevado valor de comercialização; decerto não é nisto que os contribuintes pensam quando apoiam esta política. Na verdade, muitos ficariam chocados ao saber que os traficantes usam tecnologia dispendiosa e financiada pelos impostos para assegurar o fornecimento limpo de drogas como o GHB.  
Um investigador no Delta Lab, que quis permanecer anônimo, declarou: “Por um lado, precisamos saber o que se passa nas ruas, por outro, estamos trabalhando para traficantes de droga. Mas isto é uma questão de saúde humana e é o nosso trabalho. Sabemos que somos um controle de qualidade. É difícil.”  
Alerta precoce - Os alemães lidaram com o problema de forma diferente, forçando a informação pública. Manfred Rabis, do Instituto Contra Uso Habitual de Drogas da Baixa Saxônia, em Hanover, diz “desenvolvemos um cartão informativo sobre o GHB; eu chefiei uma equipe de três cidades e criamos um sistema de alerta precoce. Descobrimos que o GHB é uma nova ameaça. Em Hamburgo, encontramos GHB em grandes doses circulando em festas – pode-se levar garrafas dele para os clubes com grande facilidade. Penso que está se tornando mais popular nos meios de dança. São diferentes grupos de consumidores, é preciso perceber isso. Um grupo não conhece o que é e pode cometer o erro de o ingerir com álcool.”  
E acrescenta: “É preciso dar informação de prevenção e, na Alemanha, damos prevenção primária, mas a prevenção secundária minimiza de fato os riscos a outro nível.”  
De volta à Holanda, Herman Mater, do Gabinete Consultivo de Drogas, uma organização que aconselha o Ministério da Justiça holandês relativamente a drogas e costumes, defende a posição oficial holandesa: “Olhe, não queremos causar pânico, e a linha oficial é de não tornar isto maior e despertar a curiosidade das pessoas. Segundo a nossa investigação, é um problema pequeno.”  
A avaliar pelo aumento nítido de uso de GHB na cultura noturna dominante, este comportamento pode ser digno de uma avestruz. Os apelos ao consumo de divulgadores como o DJ Eric, consumidor diário, mostram como o GHB já está por aí e não é provável que desapareça por si só: “É fantástico, pode-se usá-lo todos os dias e não tem efeitos secundários; não se pode dizer isto de muitas substâncias. Além disso, o hipócrita é o governo: se querem mesmo evitar que as pessoas morram, porque é que não proíbem a carne gorda? Se se preocupam com as violações, porque é que não proíbem o álcool? É estúpido. O GHB é melhor do que ambos.”  
Em outras palavras: se tomar GHB foi seguro até aqui, porque razão seria inseguro de futuro?”  
Responde Roel Kerssemakers, do Jellinek: “A diferença entre o efeito desejado e uma overdose é muito, muito pequena. Parece ser uma questão de tempo até que alguém morra na Holanda. Tentamos fazer prevenção secundária, vamos aos clubes e falamos com os consumidores.” Bom, alguém tem de fazer alguma coisa no lugar do governo... DJ Eric: “O GHB é simplesmente demasiado bom, não vão ser capazes de pará-lo.” O liquid X pode ser o novo ectasy: imparável e onipresente. Afinal, está só a um toque de distância no mouse


Liquid X

Copyright © 2001, Vida Brasil. - Todos os direitos reservados.