Vidabrasil circula em Salvador, Espírito Santo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo Edição Nº: 289
Data:
31/8/2001
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HOMENAGEM AOS GURGULINO
» TURISNOTAS
O Hotel Transamérica São Paulo está dando mais um passo para confirmar sua posição de liderança no segmento de eventos.
» MOMENTO
Momento muito especial para  
a família Nielsen  

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Forra da sacola
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...E a Caravana passa
Entrevistas

UM HOMEM SEM FRONTEIRAS  
 
Camilo Cola - Janeiro de 1993 - edição n.º 85.  
Entrevista concedida a Celso Mathias e Celeste Franceschi em Vitória - ES
 
 
 
VidaVitória trouxe na primeira edição de 93 uma entrevista com o maior empresário do setor de transporte de passageiros do país, proprietário de um conglomerado de 29 empresas, que o coloca em 3º lugar no ranking mundial do ramo. É o capixaba Camilo Cola. Um homem simples, que possui uma fantástica visão do futuro, conhece profundamente o varejo de suas empresas e as dirige com mãos de ferro.  
 
VV- Quem é Camilo Cola, onde nasceu, qual a sua origem ?  
- Minha família é de origem italiana. Assim como outros imigrantes, se embrenhou por Alfredo Chaves, Vargem Alta e lá para os lados do Caparaó.  
 
VV- Como foi o início de sua vida?  
- Eu sou um menino do interior. Nasci em 1923, na Fazenda Pindobas, que antes era um pequeno sítio. Gastavam-se 8 horas a cavalo de lá até a primeira estação, em Castelo.  
 
VV- Com quantos anos o senhor foi para o Exército?  
- Eu servia o tiro-de-guerra quando o movimento pela guerra começou. Eu tinha um conflito em casa com o meu pai, que era integralista, e eu divergia dele. Aos 18 anos acabei indo como voluntário para a guerra. Isso foi no fim de 41. Em 43 eu me transferi para a Vila Militar, no Rio, e de lá fui para a guerra.  
 
VV- Qual foi a lição de vida que o senhor tirou desta sua participação na guerra?  
- Foi muito grande. Eu diria que não teria me instruído tanto se não tivesse ido para a guerra. Eu fui com muito desejo de libertar a população do mundo de dois regimes que eu nunca tive simpatia, que são o nazismo e o comunismo. Eu sempre fui um democrata. A vida no front traz recordações que podem ser válidas para toda a vida. Minha arma foi um canhão anti-ataque. Os americanos nos ajudavam muito, porque nossos equipamentos não condiziam com o clima frio da região. Era impossível comprar coisas como chicletes, sabonetes ou cigarros. Eu, que não fumo, vi que as pessoas trocavam pontas de cigarros por bens. Juntei o que podia e um dia a tropa precisou de banho e as pontas de cigarro serviriam para pagá-lo. O fato de ter voltado da guerra com recursos foi apenas por não fumar.  
 
VV- Pelo que a gente vê as experiências que o senhor trouxe da guerra serviram para nortear a sua vida empresarial. De onde veio este equilíbrio?  
- É um dom de Deus. Eu acredito nele em todos os aspectos. Meu pai teve 14 filhos e criou 12. Dos três homens eu sou o mais novo. Foi através dos princípios da história que nós nos conhecemos. Todas as máquinas que eu acabei ajudando a evoluir nós tivemos na fazenda: a roda dágua, a transmissão por correias para aumentar a potência e a turbina.  
 
VV- Como surgiu a Viação Itapemirim?  
- Quando vim da Força Expedicionária, eu vim pensando numa coisa que já existia na Itália, que era a integração de todo o país através de frota de ônibus. A primeira vez que falei sobre isso com o ex-governador Jones dos Santos Neves, ele não entendeu a minha idéia. Depois veio Carlos Lindenberg, que ficou sabendo do meu projeto, se interessou por ele e partimos para a ação, integrando os municípios. Em alguns casos, chegamos até a abrir estradas para o Estado.  
 
VV- Mas isso foi depois. Nós queremos saber como o senhor entrou no negócio. Qual era a sua frota inicial?  
- Eu me tornei sócio do Vitório Perim. Fiquei com a metade de um ônibus que fazia a linha Cachoeiro/Castelo. Ele faleceu três anos depois, mas quando isso aconteceu já estávamos com 18 ônibus. Tínhamos evoluído bastante.  
 
VV- O senhor participa da administração de todas as suas empresas. O senhor se considera um centralizador ou hoje divide essa responsabilidade com outros?  
- Eu tenho muita disposição para trabalhar. Eu estou ligado às empresas, mas eu diria que de 95% a 99% já estão nas mãos de executivos. Eu conheço o varejo de todas elas  
 
VV- O senhor entrou no setor de transporte de cargas aéreas por não ter dado certo a sua tentativa de compra da Vasp para transporte de passageiros?  
- Eu não estava no país no segundo semestre de 88, quando a coisa começou a ser discutida. O ministro Bresser Pereira viajava para São Paulo e, questionado sobre uma decisão que teria que tomar no Conselho Monetário Nacional para liberar recursos de grande monta para duas companhias aéreas, teria comentado que só faria isso se entrasse um outro modal, junto com as duas empresas. O ideal, segundo ele, era que as duas se unissem. Tratava-se da Transbrasil e da Vasp. Quando eu cheguei da Itália, fui chamado por um ministro da área militar que queria saber se eu aceitaria o desafio de entrar com o nosso modal e transporte aéreo. Em seguida, eu falei com o Bresser Pereira, por telefone, e ele acertou para o mesmo dia um encontro com o Omar Fontana, dono da Transbrasil, o que acabou acontecendo no hotel CDoro, em São Paulo. Eu já estava com um dossiê que me foi confiado, contendo o plano estratégico para a fusão das duas empresas. Era necessário a entrada de um outro modal para explorar as cargas fracionadas que seriam acondicionadas no porão dos aviões destas duas empresas e, para que isso fosse efetivado, era necessário a privatização da Vasp.  
 
VV- E por causa disso o senhor desistiu da compra da Vasp?  
- Não. Eu não desisti.  
 
VV- Então como foi?  
- A Comissão de Privatização foi instalada e nós não fomos os únicos a ser consultados. Outros também o foram e parecia impossível que uma empresa de transporte rodoviário pretendesse entrar no ramo da aviação. Nós ficamos 32 meses superando problemas para que a Comissão propusesse à Assembléia uma proposta viável para que a Vasp fosse privatizada. Gastamos muito dinheiro e vi que não íamos chegar a lugar algum. Então, pedi ao ministro Moreira Lima que nos desse uma concessão para o transporte de cargas. Parecia que eu estava adivinhando, porque no dia do pregão apareceu um candidato inesperado: Wagner Canhedo.  
 
VV- O senhor imagina porque um grupo sólido como o do senhor foi preterido na privatização da Vasp?  
- Como eu disse, nós fomos surpreendidos com um pretendente que sequer tinha sido identificado como um possível comprador. Com as facilidades criadas para ele, eu não esperava que os resultados fossem tão negativos.  
 
VV- O senhor chegou a receber propostas iguais feitas a Canhedo?  
- Eu cheguei a receber mas não precisei nem recusar porque o Camilinho rejeitou de pronto. Ele não aceitava de modo nenhum o que alguém acabou aceitando. E esse alguém é o Wagner, que hoje enfrenta muitas dificuldades. Ele inclusive esteve comigo, há cerca de 30 dias, na Fazenda Pindobas, mas examinando o balanço da Vasp, vimos que era impossível.  
 
VV- Então a privatização da Vasp era um jogo de cartas marcadas?  
- Eu acho que a privatização foi feita de uma forma correta. A estratégia e a dinâmica de administração da Vasp é que não poderia ter sido como foi. A primeira preocupação nossa foi conversar com a Varig. O Wagner, quando entrou, achou que poderia fazer conflito e trazer passageiros que ele ia administrar. Fez isso, mobilizou grande oferta, mas tudo sem nenhuma avaliação.  
 
VV- Quer dizer que faltou experiência administrativa da parte dele?  
- Eu acho que faltou humildade de analisar que nós tínhamos que juntar esforços e não estabelecer conflitos. Mas essa privatização me levou para um outro cenário. E é a primeira vez que estou sendo questionado sobre isso. Vocês vão publicar o que ninguém ainda procurou saber de mim.  
 
VV- Como o senhor avalia o governo de Max Mauro que teve o seu apoio?  
- A minha prevenção era contra o Elcio Alvares, que tinha tido um comportamento político em 82 que não me animava em nada. O candidato do partido, que era o PMDB, em 86, era o Max. O Max, naquilo que ele visualizava, não me decepcionou hora nenhuma.  
 
VV- Mas a sua iniciativa em apoiá-lo, a princípio, era por se contrapor ao candidato Elcio Alvares?  
- Por causa do estilo de um outro. Eu tinha que ir para um outro partido. Eu falei ao presidente Figueiredo sobre isso. Acha que o quadro político no Estado me obrigava a tomar partido. Este papo foi por telefone e eu gravei e mandei uma cópia para o Camata, dizendo que aqui eu teria que ir para o PMDB e arranjar a maior potencialidade política e o melhor homem público. Optamos por Max.  
 
VV- qual a sua opinião sobre Paulo Hartung?  
- Paulo Hartung eu conheci na campanha de 86. Passei a ter um zelo muito grande pelo nome dele, embora ele não precise. Eu fiquei muito entusiasmado quando ele se prontificou a se candidatar a prefeito na capital e procurei ajudá-lo.  
 
VV- e a sua expectativa quanto ao governo Itamar Franco?  
- Eu espero muito dele pela experiência que tem no exercício da democracia  
 
 
A HISTÓRIA DE UM VENCEDOR  
 
Otacílio Coser - Agosto de 1994 - edição n.º 120  
Entrevista concedida a Celso Mathias e Soraia Chiabai em Vitória - ES
 
 
Apresentar Otacílio Coser pode parecer pleonasmo. Afinal, raros devem ser os capixabas que não o conhecem pessoalmente ou nunca ouviram suas histórias. Aos 67 anos, Otacílio delega poderes para seus 14 gerentes e 10 diretores que trabalham no sistema empresarial. "Ninguém é onipotente e muito poder nas mãos nos transformam em ditadores", afirma. Mas ele se mantém atento e gosta de estar bem informado. Às 10h30m é hora de saber como andam as cotações nas bolsas de Nova York e Londres. Do celular, ele conversa com seus assessores e analisa a atitude de cada um em relação ao mercado externo.  
 
VV- O Brasil hoje vive a fase do Real. Como o sr. avalia o plano do governo, que afeta diretamente o setor de exportação com a manutenção do dólar em baixa?  
- Estou muito confiante. Se o Plano falhar, vai ser um desastre para o Brasil. Nós temos que acreditar para que tudo dê certo. Quanto ao resto, só tenho a dizer que, se não houver sacrifícios, não haverá depois a bonança. Os empresários que sofrem são aqueles que não estão preparados. É claro que depois de 45 anos como empresário depois de ter vivido Getúlio Vargas, Jânio Quadros, a revolução de 64, toda essa parafernália depois da revolução e esta transição violenta, acho que agora estamos preparados para atravessar tranquilos.  
 
VV- Como o sr. se preparou para atravessar estas crises na economia brasileira?  
- Só fazendo aquilo que posso fazer. Nenhum centímetro além de nossa capacidade administrativa ou financeira. Não assumindo nenhum compromisso que não posso assumir. Só dou o passo de acordo com o tamanho das minhas pernas. Primeiro a empresa, depois o resto.  
 
VV- Do jeito que fala, parece que o sr. não se diverte. Mas o sr. viaja muito. O sr. tem o seu lazer?  
- Eu viajo quase quatro vezes por ano. São noventa dias fora. Negócios eu não trato em viagens. Negócios eu faço aqui.  
 
VV- O que é o sistema empresarial Otacílio Coser e o que representa para o Estado?  
- Em 94 estaremos entre os dez maiores do Estado, inclusive as estatais. Nosso faturamento previsto para este ano é de US$ 500 milhões, o que vai nos colocar na quinta ou sexta posição do Estado. Empresa que fatura US$ 500 milhões, aqui no Estado não tem. Nós empregamos 1.080 pessoas.  
 
VV- Em que ramos atua o sistema empresarial?  
- A minha filosofia é pela oportunidade de negócio. Empresário que é bom, que tem tino comercial, não pode se ater a um só tipo de negócio. Por exemplo: nós aproveitamos o advento do Fundap e hoje a importação representa 60% de nosso faturamento, 20% são do café e 20% de revendas agropecuárias.  
 
VV- O sr. é quem importa a maior quantidade de veículos do país. Como o sr. enxergou esta possibilidade de negócio e quais os seus projetos dentro dessa área de importação?  
- Em 91 comecei a preparar o plano para entrar no setor de importação de automóveis com a abertura feita pelo governo Collor. Como tinha a revendedora Honda Moto fui procurar a Honda do Brasil me propondo a trazer carros para o Brasil. Entreguei meu projeto de importação e provei para eles que era possível fazer este trabalho com 5% abaixo do custo que tinham. Na época eles me deram 50 carros. Em setembro de 93 foram 3 mil carros por mês. Em maio do ano passado levei meu projeto para a Autolatina e em outubro foram descarregados 100 carros deles. Este ano estão chegando mais de mil por mês. Aí eu já tinha a Honda e a Ford. Levei meu projeto para a Peugeot e eles aceitaram. Fizemos agora com a Mitsubishi, a Suzuki e devemos fazer com a Toyota.  
 
VV- Como o sr. conseguiu vender o Espírito Santo para estas empresas?  
- A primeira coisa é .er credibilidade, depois entrar com os argumentos das vantagens econômicas. A primeira vez que entrei na Autolatina eles acharam piada. Uma empresa de um Estado desconhecido querer trazer carros para o Brasil. Eu disse: o projeto está aqui e vocês ainda vão me procurar. Noventa dias depois eles estavam me procurando. Eu não tinha um milagre. Tinha custo.  
 
VV- A importação de carros é a grande tacada do grupo empresarial Coser?  
- No passado foi o café. Foi um negócio muito grande onde se exporta um milhão e meio de sacas por ano. Isto era 10% do volume exportado pelo país. Depois veio a Vitoriawagen, a usina de álcool em São Mateus, a laminação de cobre em São Paulo e a laminação de aço em Carapina. Mas veio a revolução e ficamos mais devagar. Veio o Collor e sua fase tumultuada. Só trabalho com segurança e nestas épocas se fica mais devagar. Em 93, eu sabia que tinha que fazer alguma coisa pois meu tempo é curto e observei este filão da importação de automóvel. Hoje nós montamos um sistema capaz de dominar o mercado. Das montadoras mundiais que mandam carros para o Brasil, 80% são por nosso intermédio.  
 
VV- O grupo demonstra uma grande versatilidade para entrar e sair de negócios. Como isto ocorre?  
- Tenho uma ligação afetiva com o café. Mas agora quero chegar a maior importador de automóveis. Mas existe esta versatilidade. No advento, por exemplo, do choque do petróleo, nós tínhamos uma empresa com quatro sócios. A Blomaco chegou a trazer 60% do cobre aqui consumido. Na crise do petróleo o negócio desgringolou. Nós que chegamos a ter em caixa de US$ 15milhões a US$ 20 milhões tivemos problemas com a queda do cobre e eu sabia que era hora de vender o negócio. Saí para São Paulo e todo o capital de mais de US$ 40 milhões aplicados na Blomaco foi vendido por US$ 10 milhões. Aproveitei a melhor oferta e o grupo que comprou, infelizmente, logo depois, quebrou.  
 
VV- E a usina de álcool?  
- Na época do álcool fui procurado por Camata e até Elcio. Eles falaram de São Mateus, que estava em uma miséria total. Fui lá e montei a usina de álcool que ia muito bem. Na terceira safra fazíamos US$ 30 milhões, quando veio a crise do álcool. Eu tinha investido US$ 10 milhões e vendi tudo por US$ 6 milhões.  
 
VV- O sr. age por intuição?  
- É preciso saber a hora de entrar e sair de um negócio. Para isso é preciso feeling. Não importa se uma coisa vale dez hoje, porque amanhã pode valer zero. Tem-se que saber o momento de salvar. Assim fizemos com a Blomaco, a Chocolates Vitória e laminação e o cobre.  
 
VV- Foi assim que o sr. conseguiu passar por tantas crises econômicas do país sem cair?  
- Exatamente. Nesta crise agora nós estamos atravessando a melhor fase. Nunca faturei tanto, mas porquê? É esta versatilidade que o homem tem que ter.  
 
VV- E esta indústria de palmitos agora?  
- Este é o primeiro projeto da América Latina. Todo palmito que se come no mercado nacional é feito na floresta com o desmatamento. São oito anos para uma árvore dar palmitos e com a retirada, vem o desequilíbrio ecológico. Eu descobri no Peru uma muda desenvolvida pelos Incas, que sabiam que o mundo não teria mais palmitos no ano 2000 se continuassem tirando. Não tenho vergonha de dizer: contrabandeamos do Peru a primeira tonelada de mudas, porque lá a árvore é sagrada e só se come sua fruta.  
 
VV- Como o sr. vê essas possibilidades de negócios?  
- Tudo é com muita pesquisa e projeto. O empresário deve ter um leque de negócios porque, se cinco vão mal, cinco seguram.  
 
VV- Fale um pouco sobre seu projeto que está sendo desenvolvido na Rodovia do Contorno.  
- A idéia do projeto foi do meu filho Evandro, eu apenas burilei e melhorei algumas coisas. A área foi comprada quando estava no extrerior. Naquele local nós vamos fazer o maior terminal rodo-ferroviário do Brasil. Com o entrepostamento público, um anel ferroviário. O projeto total irá levar uns cinco anos para se consolidar. Nós vamos construir um centro automotivo único no país, onde os fabricantes vão poder mandar as peças para os nossos depósitos. Nós fazemos todo o serviço de importação até a entrega para o cliente. Neste centro teremos montagem, estocagem de peças.  
 
VV- Para encerrar, um pouco de política. Como o sr. vê a possibilidade de o Brasil ser dirigido por um operário?  
- Não gosto de tecer críticas. Nunca fui político. Mas eu acho que o Brasil está precisando de um bom gerente e não seria, talvez, um operário a melhor opção  
 
 
 
O HOMEM QUE COMPROU A VASP  
 
Wagner Canhedo - Maio de 1996 - edição n.º 162  
Entrevista concedida a Celso Mathias e Marcus Monteiro em Brasília - DF
 
 
Um mito para os empregados, capaz de ouvir atentamente um interlocutor que o aborda nos corredores da empresa e cronometrar suas reuniões diárias com os executivos do grupo, Wagner Canhedo é estigmatizado pelos empresários paulistas. Natural de Pontirendaba (interior de São Paulo), ele é conhecido como "o caminhoneiro goiano" que comprou a Vasp. Apontado como "testa de ferro" da maioria das personalidades do mundo político - Delfim Neto, PC Farias, Fernando Collor e Orestes Quércia - mostrou que a construção do seu patrimônio é fruto de mais de 14 horas diárias de trabalho ininterrupto, há mais de 40 anos. Bilionário, não se considera rico. "Se pensasse assim, quando tinha US$ 1 milhão não teria construído esse patrimônio e gerado tantos empregos", argumenta.  
 
VV- Quando foi comprado seu primeiro avião?  
- Meu primeiro avião foi um Cesninha 140, comprado em 53, depois troquei o Cesninha 140 por um Cesninha 170. Em 54, troquei o 170 por um Cesninha 172, que já era triciclo. Durante o ano de 55, eu importei um avião dos Estados Unidos, que é meu até hoje. Eu o comprei da Cássio Muniz e ele chegou em maio de 55. É um 210 Centurion, que voava a 300 km/h, com trem retrátil de prefixo Charles Delta November- CDN. Para aquela época era um avião super avançado.  
 
VV- Como foi a sua entrada no ramo da aviação?  
- Nós sempre tivemos aviões. Surgiu então a oportunidade de participarmos do processo de privatização da Vasp. Logo que a imprensa começou a divulgar a notícia, estudamos todos os números da Vasp, Varig, TransBrasil, de companhias americanas e européias. Uns oito anos antes da privatização da Vasp, nós já tínhamos definido nossa participação no processo. Foram 72 empresas que compraram o edital e somente cinco grupos foram pré-qualificados: o Grupo Canhedo; a Líder; o Grupo Amouche, da área de tecidos; a TAM, e outro grupo do Sul, que esqueço o nome agora.  
 
VV- A Itapemirim não entrou na qualificação?  
- Não. Foi uma surpresa para mim. Camilo Cola, naquela época, já estudava a possibilidade de participar do projeto de privatização da Vasp e, para minha surpresa, ele não entrou com a documentação e não foi pré-qualificado. Portanto não participou do leilão.  
 
VV- O que há de verdade e de mentira nessa história de que o senhor seria o "testa-de- ferro" de Paulo César Farias e de Collor?  
- Na boca do povo, eu sempre tive sócios. Todo mundo dizia que a Wadel só ia bem porque era minha e do Delfim Neto. Wadel: Wagner e Delfim (risos). Mas depois, todo mundo viu que não era, e o assunto acabou desgastado. Então me arrumaram o Quércia. Quando nós fomos os vencedores do processo de privatização da Vasp, todo mundo falava: "Taí, o Quércia é sócio do Canhedo"... Depois, ele desgastou. Todo mundo viu que não era verdade. E me arrumaram o Collor: "O Collor é sócio do Canhedo". Aí viram que não era e me arrumaram o PC Farias. Ah! O PC! É! Ele é sócio do Canhedo! Depois daquela CPI, tinha cheque do PC para mim. Cheque meu para PC. PC nunca foi meu sócio. Eu nunca tive sócios. Meus sócios são meus filhos. A única coisa que eu não serviria na minha vida era para ser "testa de ferro" de alguém.  
 
VV- Quando entrou na aviação, o senhor sentiu alguma discriminação no meio? Foi rejeitado?  
- Eu diria que a imprensa paulista ou talvez o meio empresarial paulista, não tenha me aceito de bom grado, por que a Vasp sempre foi de São Paulo. Eu sou paulista, mas todo mundo me julga goiano. Algumas empresas gastaram dinheiro por aí para falar mal de mim e da Vasp, dinheiro que mais tarde pode até fazer falta para elas. Mas o sol nasce para todos. A fase de reserva de mercado já era. Essa fase a Varig passou e fez mal para a própria Varig. Ela não mantinha a sua equipe mobilizada o suficiente para um regime de competição.  
 
VV- A que o senhor credita esse desastre da Varig? Essa turbulência com a troca de presidentes, um atrás do outro, prejuízos...  
- "Eu Considero a Varig aquele gato gordo, deitado no sofá. Passa um ratinho magro e ele nem olha. E o gatinho magrinho que está por ali, passa o ratinho e ele corre atrás, já pega aquela comidinha. Eu acho que a Varig é aquele gato gordo da aviação. E a Vasp e a Transbrasil estão acesas, de olhos abertos, para poderem crescer alguma coisa. Estamos buscando oportunidades, buscando espaços. A Varig sempre teve tudo na mão, e ainda tem. Você vê esse privilégio da operação das linhas de Paris e Lisboa. Na Espanha, nós conseguimos um espaço que a Varig abandonou em Barcelona. Ela tinha quatro vôos por semana. A Vasp está com um aproveitamento de 92% nos vôos para Barcelona na baixa estação e estamos apenas com duas frequências semanais. Precisamos aumentar para quatro vôos por semana, mas não conseguimos, porque a Varig, aliada com a Ibéria, faz lobbie junto ao governo espanhol para não deixar a Vasp crescer".  
 
VV - Quando o senhor entrou no mercado, surgiram uma série de histórias interessantes. Numa delas o senhor teria dito ao comandante Rolim Amaro, da TAM: "eu vou entrar no mercado para baixar preço e prestar serviços de qualidade. Se você não se modernizar, vai quebrar". Numa outra, seu primeiro adversário que apareceu após a compra da Vasp foi a Transbrasil, e esbarrou em Omar Fontana...  
- Eu não diria que esbarrei no Omar Fontana. Acho o Omar Fontanaa um herói, porque a Varig tentou quebrar a Transbrasil durante 20 anos e nunca conseguiu. Logo que nós chegamos à aviação, tínhamos um estudo que mostrava que o mercado brasileiro não suportaria as três empresas. O mercado comporta apenas duas empresas de aviação nacionais e mais as regionais. Eu sabia tudo o que se passava na Transbrasil, na Varig. Sempre fui um grande analista de empresas e analista de balanços. Nós fizemos as coisas profissionalmente. Eu sou empresário, e não é por acaso.  
 
VV- Olha, se nós estivéssemos conversando com o senhor dois meses depois do grupo Canhedo ter assumido o controle acionário da Vasp, nós perguntaríamos o que a Vasp teria para oferecer aos passageiros. O senhor em 1990 só tinha Aruba...  
- Um vôo por semana para Aruba. Depois, entramos em Bruxelas, em seguida em Los Angeles, Miami, Nova York, Zurique, Barcelona, CasaBlanca, Atenas... Mas, antes disso, nós tínhamos Seul, na Ásia. Agora ganhamos Osaka e hoje temos 13 linhas internacionais. Como disse, ganhamos Osaka e iríamos inaugurar no dia 6 de maio, mas fomos obrigados a mudar para 26 de junho. Já vendemos Japão inteiro hoje, porque temos uma associação com uma empresa de aviação japonesa.  
 
VV - Em 1994, eram 34 aviões. Em 1995, 38. E em 1996?  
- Hoje nós temos ainda os mesmos 38 aviões, porque não recebemos os aviões que vão chegar em 96. Nós temos três MD-11 para chegar e temos sete 737- 300. Devemos chegar ao início de 1997 com 48 aviões. A Vasp faturou em 1990, quando tinha 34 aviões, US$ 340 milhões. Depois, tivemos aquela crise. Pioramos, em 1993, nós já faturamos US$ 530 milhões. Em 1994, foram US$ 860 milhões e, em 1995, o faturamento foi de US$ 1.153 bilhão, isso com a mesma frota. Então, você verifica que estamos aprendendo a cada dia. O número de funcionários da Vasp hoje é de 5,2 mil, os melhores do mercado.  
 
VV- O senhor deixa transparecer um profundo conhecimento sobre todas as áreas em que atua. Como o Wagner Canhedo consegue isso?  
- É porque nós viemos lá de baixo. Eu comecei trocando pneu de caminhão. Comecei lavando peça de caminhão, aos 8 anos, e você vai crescendo na vida, conhecendo a empresa. O presidente conhece todas as áreas da empresa. O próprio técnico sente uma grande segurança quando sabe que o presidente da companhia conhece a área dele e sabe o que ele está fazendo. Nós valorizamos muito o nosso pessoal, porque sabemos o que eles estão fazendo.  
 
VV- Qual a posição da Vasp no ranking de empresas de aviação?  
- Nós somos hoje a 65ª empresa no mundo; a Varig é a 43ª em faturamento. A Transbrasil é a 87ª.  
 
VV- Seus principais executivos são seus quatro filhos. Como é feita a divisão de poder dentro do grupo Canhedo?  
- Meus quatro filhos têm liberdade total. Todos eles tocam as empresas como se fossem eu. Agora, em cada empresa temos uma equipe.  
 
VV - E a participação da Dona Isaura nisso tudo?  
- Ah! A participação de Dona Isaura é muito importante. Nós não fazemos nada sem ouvir a Dona Isaura. Ela é uma peça fundamental no desenvolvimento desse grupo, dessas empresas.  
 
VV- Quando o senhor fala da Vasp e do Brasil, não esconde um tom de voz apaixonado. Por quê?  
- O empresário brasileiro é muito competente, muito criativo. Quando vejo a possibilidade de uma empresa aérea passar o seu controle acionário para uma empresa americana, européia ou asiática, fico muito aborrecido. Isso porque eu acho que podemos conservar nossa soberania na área da indústria do transporte aéreo sem precisarmos nos associar com ninguém  
 
 
 
DEPOIS DO SILÊNCIO  
Fernando Collor - Outubro de 1996 - edição n.º 173  
Entrevista concedida a Celso Mathias e Marcus Monteiro em Miami - USA
 
 
A partir de artigos publicados na imprensa, VidaVitória decidiu procurar Fernando Collor de Mello para questioná-lo sobre a nova leitura que estão fazendo do período em que ele presidiu o Brasil.  
Encontramos o ex-presidente Collor de Mello instalado no 19º andar de um edifício onde advogados locais e empresas como a Air France mantêm seus escritórios. Na entrevista, ele faz uma revisão de seu governo no período que o levou ao impeachment, evita citar nomes de quem ele considera seus algozes e garante que foi deposto por um golpe. O ex-presidente espera o retorno de seus direitos políticos -- cassados pelo Senado Federal - após a sua absolvição pelo Supremo Tribunal Federal, "a mais alta corte da justiça brasileira", como faz questão de lembrar.  
 
VV- O senhor chegou muito cedo a altos cargos políticos. Onde a idade ajudou ou atrapalhou a sua carreira?  
- Eu diria que a idade ajudou bastante. Primeiro, por ser um contemporâneo do meu tempo. Por ser uma pessoa engajada nesse novo mundo que apareceu a todos nós neste final de século. Este é um fator positivo. O segundo fator positivo da idade foi a vontade de realizar. A disposição de trabalhar dia e noite servindo integralmente a meu país, ao meu Estado e ao meu Município. Algo que se tivesse mais idade talvez não tivesse mais a disposição, nem tampouco a saúde que lhe é exigida para que você cumpra na sua plenitude o mandato que lhe foi outorgado.  
 
VV- Quais os pontos negativos da pouca idade que podem ter atrapalhado a sua carreira política?  
- Os pontos não tão positivos eu diria que são exatamente esse excesso de energia, vitalidade, de vontade de fazer as coisas acontecerem de forma rápida. Esse certo voluntarismo e também o fato de a idade não ter permitido, naquele momento, conhecer melhor a natureza humana.  
 
VV- O senhor teria hoje esse amadurecimento para tratar com os políticos?  
- Sem dúvida, o ato de eu ter me dedicado quase que absolutamente à tarefa de administrar o país me deixou pouco tempo para tratar da questão do relacionamento político com o Congresso Nacional. Eu deveria ter dividido meu tempo para dar maior atenção ao mundo político, porque as regras do jogo que estão aí são essas. Isso é uma exigência e, portanto, uma prática da vida pública nacional.  
 
VV- O que o senhor Paulo César Farias representou na sua vida pública? Até onde as ações dele contribuíram para a sua saída da Presidência da República?  
- O dr. Paulo César foi um dedicado tesoureiro de campanha do candidato do PRN à Presidência da República. Foi só isso que o doutor Paulo César representou na minha vida pública. As outras lições ficam por conta de especulações que não se comprovaram.  
 
VV- O senhor sabe nominar quem foram os patrocinadores do seu processo de impeachment?  
- São vários. São várias pessoas... mas eu não devo homenageá-los citando-os pelo nome. Alguns já não estão mais entre nós. Outros foram julgados e condenados por comprovadas práticas menos nobres ao lidar com o Orçamento da União. Outros foram derrotados nas urnas e outros ainda estão aí exercendo mandatos públicos... enfim, eles sabem quem são. Porque, no fundo, no fundo, lhes dói a consciência a maneira feita, a maneira baixa, covarde... (cerra os punhos e travando os dentes, repete) covarde como eles promoveram o meu impeachment.  
 
VV- A que o senhor atribui o fato de a mídia ter se colocado contra o senhor durante todo esse processo que culminou no seu impeachment?  
- (Depois de um longo silêncio) É... isso aí tem... isso aí... Isso aí fará parte do meu livro. Não quero antecipar nada agora.  
 
VV- O senhor acha que houve maniqueísmo da massa naquele momento?  
- Sem dúvida. A população foi manipulada do ponto de vista psicológico. Houve uma manipulação das massas pela propaganda contra minha pessoa e meu governo. Essa foi uma violação brutal, sobretudo jovens da classe média que foram utilizados como inocentes úteis nesse processo. Eu já recebi várias cartas e visitas pessoais de alguns jovens que naquela época tinham 13, 14 anos, e hoje com 17, 18 e até 21, chegam para mim dizendo que agora entendem como eles foram utilizados naquele processo.  
 
VV- A mídia que se mobilizou para levá-lo à Presidência da República foi a mesma que contribuiu para retirá-lo do cargo?  
- Claro! Eu não sei é se houve esse apoio à minha campanha para a Presidência. Houve uma cobertura grande da mídia à minha ação como governador do meu Estado. Até porque eram fatos que se criavam dentro do Estado, era uma nova forma de administrar que se fazia necessário implantar não só em Alagoas, mas em outros Estados do país. Isso era notícia e, logicamente, a mídia divulgava essa ação. A partir do momento em que fui candidato à Presidência da República, você nota uma mudança muito grande no comportamento da mídia em relação a minha candidatura. Eu até entendendo, porque tínhamos nomes importantes da política nacional, eram 15 ou 16 candidatos. Era natural que essas pessoas com 40, 50 anos de vida pública tivessem um relacionamento maior com os órgãos da chamada grande imprensa. Eles com 40 anos de vida pública e eu com 40 anos de idade. A partir daí não vimos nenhuma manifestação de apoio à mídia, ao contrário, a grande imprensa foi muito agressiva contra a minha.  
 
VV- Por que o senhor diz que está faltando ao governo vontade e determinação política?  
- Digo isto porque, em 1990, tomei posse em março e em novembro já tinham eleições. Me lembro muito bem que nem por isso deixei de tomar todas as medidas necessárias independentemente da questão de estarmos próximos ou não de uma eleição. Ao governo está faltando determinação, vontade política e tutano para comandar as reformas e sensibilizar não só o Congresso Nacional, mas a sociedade, para o acerto das reformas que precisa o país.  
 
VV- Num dado momento do seu governo ventilou-se a possibilidade da formação de uma coalizão e o hoje presidente Fernando Henrique Cardoso, na época senador da República, foi convidado para ser ministro das Relações Exteriores. Foi impedido por Mário Covas. Isso realmente foi verdade?  
- Ele esteve para ser ministro dessa pasta duas vezes. Quero dizer que, pessoalmente, tenho um grande apreço pelo presidente. Ele é uma pessoa encantadora e sempre digo que é meu marxista preferido (comenta em tom de ironia). Ele quis ser meu ministro e ficou encantado com a idéia. E eu também fiquei encantado com o fato de poder tê-lo no meu Ministério porque, quando fechei o acordo com o presidente do PSDB, na época Franco Montoro, caberia ao PSDB os ministérios da Fazenda, que seria ocupado pelo deputado José Serra, e das Relações Exteriores, pelo então senador Fernando Henrique Cardoso. Veja bem, eu estava composto com o PSDB e entregando aos tucanos o Ministério da Fazenda, um partido adversário. Então é claro que eu queria me cercar de pessoas que reputava como importantes. Mas não tenho dúvida de que Fernando Henrique seria um grande ministro para essa pasta, com muita desenvoltura, principalmente pelos salões. Você solta ele nos palácios, em um lugar acarpetado, com boa música de câmera, com violinos, que ele se sai maravilhosamente bem.  
 
VV- Qual é a expectativa do senhor. Fernando Collor pretende se candidatar antes do ano 2000, já que está sendo inocentado pela justiça?  
- Não farei nada para isso. Até porque não quero retirar do Senado essa satisfação que ele deve a si próprio, enquanto instituição. O Senado cassou o mandato de um presidente e os seus direitos políticos única e exclusivamente na suposição de que as acusações que lhes faziam eram verdadeiras. Muito bem, dois anos depois da investigação, eu sou o político mais investigado da vida republicana do país. Investigaram toda a minha vida e não encontraram nada  
 
UM CRONISTA E SEUS PRESIDENTES  
 
Gilberto Amaral - Dezembro de 1996- ed. n.º 177  
Entrevista concedida a Celso Mathias em Brasília - DEF
 
 
Nos anos 50, quando o ex-presidente Collor ainda estava nos cueiros, ele já conspirava e frequentava as hostess do poder. Nascido na mineira São Sebastião do Paraíso, filho de José Soares Amaral, homem de espírito aventureiro, Gilberto Amaral deixou cedo a cidade natal e, até pousar em Brasília, viveu no Rio, Belo Horizonte, no interior de São Paulo e de Minas. Aos 62 anos, Gilberto Amaral ainda carrega a expressão e os trejeitos de menino traquina do interior. Este homem singular é exemplar único na atividade que exerce. Percursor da coluna social moderna, nestes anos todos frequentou com desenvoltura os bastidores do poder.  
 
VV- Gilberto, tudo começou...  
- Tudo começou na minha cidade natal: São Sebastião do Paraíso. Meu pai José Soares Amaral, minha mãe Otília Amaral Soares. Papai, em 1939, era homem do jogo, como eu também sou homem do jogo. Só que eu sou do jogo para me divertir, arriscar a sorte, e meu pai era homem do jogo para ganhar dinheiro. Tanto que quando casou com a minha mãe, em 1933, ele foi para São Paulo - eu ainda pequeno - e teve a maior casa de jogo de São Paulo, que ficava no maior edifício da cidade, naquela época, o Martinelli: era a Casa do Salão Verde. Em 1939, meu pai voltou para São Sebastião do Paraíso e resolveu abrir uma rádio. Todo mundo o tachou de louco - "seu Zé Amaral é um louco!". Hoje tem até uma avenida que circunda a cidade com o nome dele: a Avenida José Amaral. E aí a vida da gente vai trilhando o rumo do pai.  
 
E foi assim que desde pequenino passei a frequentar a rádio, a tomar amor pelo microfone. Até hoje, quando alguém me chama para falar ao microfone, eu falo com a maior tranquilidade porque é o instrumento com que tenho maior intimidade. E aconteceu justamente em 1945: eu tinha 11 anos e meu pai só tinha a rádio no término da Segunda Guerra Mundial. Um dia ele me falou: "senta aqui, nesta altura deste aparelho e, quando o rádio começar com a edição extraordinária do Repórter Esso - com aquela musiquinha tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá etc - você vira essa chavinha para que a nossa rádio entre em cadeia com o Repórter Esso."  
 
E depois o tempo foi passando e eu me envolvendo com o rádio. Comecei a ser aquele que colocava o disco para tocar depois que o locutor anunciava; o rádio técnico, que tocava a música, não é? E aos poucos meu pai foi me ensinando a arte de falar ao microfone, aperfeiçoando a minha dicção, a minha respiração abdominal. Em 54 surgiu um convite, para ir trabalhar na Rádio Cultura de Poços de Caldas, onde fiquei durante seis meses e então resolvi voltar para Ribeirão Preto, porque naqueles seis meses eu não fui nenhuma vez ao colégio e tirei zero em todas as matérias. Arranjei uma amante e enveredei pela boemia. Lá em Poços de Caldas eu tinha um fã-clube fantástico de meninas paulistas, que me ouviam falar e iam lá me levar flores. Em 55 resolvi ir para Belo Horizonte, mas proibido pelo papai de trabalhar em rádio. Mas, como rádio é uma cachaça, de repente me deu vontade e eu fui até à Rádio Inconfidência. Então me submeti ao primeiro teste, o Celso Sifer, que era um produtor de rádio e televisão, poeta e escritor, ouviu o meu teste e gravou a minha voz. Ele, naquela época, estava lançando um programa de rádio feito em Belo Horizonte. O locutor inicial, no primeiro mês, foi o maior narrador deste país, que era o César Ladeira. No terceiro contrato, o Celso Sifer me convidou para que eu fosse o narrador. E desta feita eu lia num dos quadros do programa a crônica do Wilson Frade, que considero o meu mestre, que é o papa do jornalismo e da crônica social em Belo Horizonte. E nesse aspecto o Celso Sifer bolou uma estratégia diferente: onde tinha festa que Wilson Frade anunciava, nós íamos com a nossa equipe e, gravador em punho, fazíamos reportagens ouvindo as pessoas na festa e depois passávamos no meu programa.  
 
VV - O senhor começou a fazer colunismo social pelo rádio...  
- Lendo a coluna do Wilson Frade e depois fazendo essas reportagens. E aí eu mandei esses acetatos de presente para ele. Mas, quando eu estava de férias, eu ia a São Sebastião do Paraíso. Lá então eu comecei a fazer uma coisa que eu acho que nenhum cronista fez ainda: fazia colunismo social mural. Sem saber escrever à máquina, começava a catar milho lá na rádio de papai e fazia notícia lá de São Sebastião do Paraíso. Fulano namorando sicrano: hoje tem festa assim: fulano fez isso e aquilo. E 7 horas da noite, eu pregava aquele papel nos postes das ruas e lá dentro do clube da cidade. Às 8 horas, fazia fila de gente para ler as notícias da minha crônica social. Algum tempo depois comecei na televisão. Quando inaugurou, em 1956, a TV Itacolomi, eu participei da inauguração da emissora fazendo primeiro um comercial em cima de uma Lambretta. Tremia igual vara verde...  
 
VV- Já lhe deram o crédito de ser o percursor da coluna social moderna, da coluna social que não é feita só contando festinha, etc., etc., mas uma coluna mais rica, mais informativa?  
- Eu fui o primeiro a fazer crônica social na televisão e a começar a dar créditos para os fotógrafos. Bem, sobre a Rádio Nacional, em 1964 estoura a revolução. Me lembro que eu estava fazendo um programa na entrada da rádio, sentado num banco..., as câmaras lá fora, e eu sentado em frente do meu carro - eu tinha comprado um Simca Chambord, que era o carro da época, muito bonito e tal. Quando terminei o programa e entrava, o Édipo do Valle, que era o diretor da Rádio Nacional, mandou me chamar e falou: "Olha, nós vamos começar uma programação especial". Já estavam no ar os rumores de uma revolução e no noticiário do Repórter Nacional, e eu já vinha dando aquilo. Logo, na tal programação especial, nós começamos a entrevistar deputados e senadores. Passamos a noite e a madrugada inteira entrevistando estes políticos defendendo o senhor Jango Goulart. Não que eu fosse defensor do Jango. Eu era apenas um funcionário de uma rádio do governo e minha obrigação era fazer aquilo que me mandavam.  
 
VV- Nesse período de sua vida aqui em Brasília, o senhor viu não só políticos que cresceram, mas também conviveu com o empresariado. Quais eram os empresários que começaram naquela época, que estavam despontando e que hoje estão na cabeça, e quais os que eram grandes naquela época e que hoje desapareceram? O senhor se lembra de alguma coisa...  
- Bem, daquela época me lembro bem do Collor, que hoje é meu amigo. O Collor era estudante. O Paulo Octávio era o grande amigo dele, como o Luiz Estevão. O Paulo Octávio era comerciante, o Estevão tinha a loja OK. O Paulo Octávio era corretor de imóveis e o Estevão tinha a casa de pneus, a OK. E ali eu assisti o crescimento dos dois, que hoje são duas potências na classe empresarial de Brasília. E, assim, outros e outros mais como Gilberto Salomão, o Eulício Lopes Silveira, o Sérgio Koffes.  
 
VV- E essa sua ligação com homens do calibre do Canhedo, do Omar Fontana, do Paulo Octávio? Eu já vi depoimentos pessoais desses homens sobre o senhor e eles o admiram e respeitam. Como é essa convivência?  
- É porque eu os respeito muito, acompanho passo a passo o seu trabalho e os incentivo nas coisas que eles estejam fazendo. Eu os glorifico através da minha coluna, dou força a eles, entende?  
 
VV- A gente sabe que o senhor é amigo de pessoas que são de alguma forma adversárias na política, nos negócios. Qual o segredo do equilíbrio no momento em que o ex-presidente José Sarney e o ex-presidente Collor entram em alguma disputa política?  
- Em primeiro lugar, quando estou com Sarney ou com Collor nenhum deles fala mal do outro na minha frente, porque eu não vou admitir que um fale mal do outro. E, se falar, eu toco o telefone e digo: "fizeram mal em falar; tanto para um, como para outro".  
 
VV- Qual foi o erro que o senhor acha que o Collor cometeu para...  
- Faltou maturidade política porque, antes de ele ser presidente da República, quando vinha aqui, como governador, ele sempre tinha uma reunião comigo e com o deputado Alberto Cordeiro, no Escritório de Representações do Governo de Alagoas. E ele discutia conosco as conversas que ia er, as medidas que ele ia tomar nos encontros dele com o presidente. Então, tudo que a gente falava com ele, ele não fazia nada, nunca fez. Uma vez passei 15 dias na casa do Collor, quando ele foi prefeito. Eu cheguei numa noite em que ele estava jogando amão. Então olhei bem para a cara dele e disse: "Fernando, você hoje é prefeito, prefeito de Maceió. O que você pretende ser na vida? Ele respondeu pra mim: "Eu sou prefeito, vou ser governador, eu vou ser deputado federal e vou ser presidente da República". Falou com uma convicção que realmente era um negócio fantástico  
 
 
O HOMEM DA GAROTO  
 
Helmut Mayerfreund - Março de 1997- edição n.º 183  
Entrevista concedida a Celso Mathias em Vila Velha - ES
 
 
Sua postura surpreende, e quem não o conhece pode confundi-lo com um trabalhador da Chocolates Garoto. Helmut Mayerfreund não é apenas o presidente da Garoto e do Conselho de Administração da empresa líder no segmento de bombons e tabletes -- que juntos representam 80% do mercado - e segunda maior no ranking nacional. É, antes, dono de uma admirável simplicidade. De outubro de 1961 a 1995, sua jornada de trabalho era de 10 horas por dia. Hoje, sentindo-se mais liberado com o suporte técnico- administrativo que lhe dão o filho Victor, de 32 anos, e os demais colaboradores da diretoria, cumpre uma carga de trabalho diária de oito horas. Conta que, quando completar 65 anos, pretende diminuir o ritmo de suas atividades na empresa. Parar de vez, entretanto, não faz parte de seus planos. Conheça mais sobre o homem da Garoto nesta entrevista concedida por ele e seu filho Victor Mayerfreund (VM)  
 
VV- Como o senhor Helmut se preparou para ser o presidente da Garoto e do Conselho de Administração da empresa? Qual a sua formação?  
HM- Fiz o método empírico (risadas). Depois de fazer o curso Científico no Brasil, estudei Engenharia Mecânica na Alemanha. Lá, e também na Suíça, fiz muitos estágios em fábricas de máquinas para indústrias de chocolate.  
 
VV- Então o senhor foi preparado...  
VM- Mais na área técnica. Na área administrativa, fiz seminários, não frequentei cursos longos. Naquela época, não era comum os pais mandarem os filhos para Harward. Meu primeiro cargo na empresa foi de diretor comercial, mas na verdade 80% do meu trabalho eram voltados para área industrial. Com a mudança da razão social da empresa para Chocolates Garoto S.A., em 1962, meu pai assumiu a presidência. Zenning, seu sócio, seria o diretor comercial e eu, diretor industrial. Com a morte de Zenning, ficou em aberto a direção comercial, à qual eu dedicava os 20% restantes de minhas atividades na empresa.  
 
VV- Como a Garoto é uma empresa familiar, mas com diretoria profissionalizada, como se deu a trajetória da família dentro da estrutura da empresa? Como o sr. Victor, por exemplo, chegou a diretor industrial e sucessor do presidente?  
VM- Estudei Engenharia Mecânica em Vitória, estagiei e vim trabalhar na Garoto. Comecei como engenheiro da área de projetos. Fiquei seis meses ampliando conhecimentos junto a empresas fabricantes de máquinas e equipamentos na Alemanha e na Suíça. Voltei em 1990 e, em 1991, assumi a gerência de um projeto de desenvolvimento de uma nova linha de chocolates (tabletes e bombons), investimento que demandou em torno de US$ 21 milhões. Concluído o projeto, em 1994, fui para a área de produção, onde fiquei três meses. De lá saí como diretor industrial e estou há três anos no cargo.  
 
VV- De estagiário a diretor industrial, houve algum momento em que o sr. Victor foi subordinado a um diretor que não fosse da família, ou sempre o foi ao presidente da empresa?  
VM- No começo, eu tinha um gerente na área de engenharia. Já como gerente de área técnica, respondia ao meu pai que, em certo momento, além de presidente, acumulou a função de diretor industrial. Hoje, como diretor industrial, estou subordinado ao meu pai, como presidente da empresa.  
 
VV- No processo de avaliação do sr. Victor, como o sr. Helmut separou o pai do profissional?  
HM- O que eu sempre digo é que, só vem trabalhar aqui na empresa filhos ou sobrinhos de sócios que tiverem competência.  
 
VV- Como está estruturada a diretoria e a organização societária da empresa hoje?  
HM- Eu sou o diretor presidente; Victor Mayerfreund, diretor industrial; Jacob Cremasco, diretor comercial; Ubiracy Fonseca, diretor de logística e Klaus Günther Zening, diretor de recursos humanos. Estamos contratando um profissional para a área financeira. Os principais sócios somos eu e meu irmão Fernando, com 40% e 32% das ações da empresa, respectivamente. A minha madrasta tem 10%, o Klaus 7% e o restante das ações é detido por sócios menores.  
 
VV- E os seus outros três filhos, estão na empresa?  
HM- Não, da minha família atuam na empresa apenas eu e o Victor. A Jeanete, 31 anos, e a Karen 28, trabalharam aqui uma temporada, mas hoje estão envolvidas em projetos próprios. O Alex, 26 anos, também. Montou uma firma de acesso a Internet, com mais três colegas.  
 
VV- Qual o segredo para uma empresa instalada no ES competir palmo a palmo com as multinacionais Lacta e Nestlé?  
VM- Sempre procuramos o beanchmarketing, a melhor prática. A Garoto tem a prática da Europa e dos Estados Unidos, e isso não é de hoje, vem desde a década de 60. Essa é a razão do sucesso.  
 
VV- Mas o seu concorrente adota a mesma estratégia...  
VM- É por isto que tem sucesso também.  
 
VV- Como a Garoto está se preparando para enfrentar a agressiva concorrência do mercado?  
VM- Reforçar a imagem da marca, buscar produtos com maior valor agregado e reforçar a distribuição.  
 
VV- E a questão do preço?  
VM- Essa questão funciona num primeiro momento, para se ganhar participação no mercado. Mas tem um efeito muito curto, porque depois de um tempo, quando se faz redução, no final, o que acontece? Ocorre a depreciação do produto perante o consumidor final. Então, as empresas ficam com uma margem de lucro muito espremida e começa a quebradeira.  
 
HM- Na Alemanha, por exemplo, havia centenas de fábricas de chocolate, cada cidade tinha a sua. Começou uma competição muito forte e redução de preço. No final, muitas empresas faliram, fecharam, desapareceram. As que realmente estão bem são duas ou três empresas que não se dobraram à política de baixar o preço e a qualidade.  
 
VV- Qual a margem de lucro da Garoto?  
VM- Hoje, sobre as vendas é de 5%.  
 
VV- Há um temor com relação a posição alcançada pela Lacta, em primeiro lugar no ranking?  
VM- Existe essa preocupação.  
 
HM- A Lacta pode ganhar maior market share se baixar os preços. Tem cacife e fôlego para isso. Mas não creio que vá atacar essa política. Vai entrar em conflito com a Nestlé, que também pode baixar seus preços.  
 
VV- A Garoto pretende diversificar os negócios?  
VM- Não. No planejamento estratégico elaborado no ano passado está bem claro: vamos permanecer no setor só de chocolates, e os mercados preferenciais são América Latina e EUA.  
 
VV- Em época de eleições, os empresários costumam ser procurados por candidatos. A Garoto costuma ajudar candidatos políticos com apoio financeiro?  
HM- Já ajudamos, mas é uma ajuda relativamente pequena. Normalmente, não fazemos isso...  
 
VM- Essa é uma questão definida pela diretoria, que aprova ou não. No caso de governador, com dois ou três candidatos, a gente jamais vai apoiar os três. Só se tiver um candidato que, definitivamente, obtenha a unanimidade da diretoria.  
 
HM- respondendo essa pergunta com precisão, sem fazer muito rodeio, nas últimas eleições municipais ajudamos um único candidato. E mais ninguém  
 
O FILHO DE D. ARLETE  
 
Luiz Eduardo Magalhães - Abril de 1997- edição nº 184  
Entrevista concedida a Celso Mathias e ao senador Gerson Camata, num vôo da Abaeté Taxi Aéreo entre Vitória e Brasília
 
 
Ele é natural de Salvador. Em 1974, aos 24 anos, já era bacharel em Direito e empresário. Foi o deputado estadual mais bem votado do país (125.328 votos). Reeleito em 1983, eleito deputado federal (Constituinte) em 1987, reeleito em 1991 (Congresso Revisor), repetiu a dose em 1995 e, comenta-se, abdicando do lugar hoje ocupado por Marco Maciel, que lhe fora oferecido à época. Estamos falando, é claro, do filho de Dona Arlete Maron de Magalhães, como ele faz questão de lembrar, e do presidente do Senado, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães, Luiz Eduardo Maron de Magalhães, que frequenta as hostess da política desde o primeiro suspiro, quando o pai era um combativo e ambicioso deputado na Assembléia Legislativa da Bahia.  
 
VV- Primeiro gostaríamos que traçasse um quadro geral da sua carreira política.  
Tenho 42 anos de idade e fui deputado estadual por duas vezes. Deputado federal na terceira legislatura, tive a oportunidade de presidir a Assembléia Legislativa da Bahia, como também a Câmara dos Deputados, duas das funções mais importantes que eu cumpri, além de líder do PFL por três anos na Câmara dos Deputados. Sou formado em Direito, sou bacharel, estou licenciado, mas já exerci a atividade privada e hoje presido a Comissão de Relações Exteriores da Câmara.  
 
VV- Na condição de um político cuja carreira é coroada de êxitos, o que é que projeta o seu futuro político?  
Olha, todo cidadão tem aspiração de dirigir o governo de sua terra e eu naturalmente tenho a aspiração de ser governador da Bahia, embora o meu projeto não seja ser governador ou nada na eleição de 98. Eu tenho a expectativa de ser candidato em eleição majoritária na Bahia, que poderá ser para governador ou senador. Eu tenho essa aspiração desde garoto.  
 
VV- O senador Antonio Carlos Magalhães foi prefeito de Salvador, governador por três vezes, senador, ministro e o senhor está seguindo os passos dele. Isto não pode suscitar rumores de seus adversários políticos sobre a dinastia dos Magalhães na Bahia?  
Normalmente eles falam muito em oligarquia. Acontece que meus adversários políticos hoje, na Bahia, vêm de famílias de políticos anteriores à minha, como por exemplo o general Juraci Magalhães, o ex-senador Jutahy Magalhães, que são adversários de uma oligarquia mais antiga e, pelo julgamento do povo, mais atrasada (risos).  
 
VV- E o Fernando Henrique Cardoso?  
Eu acho o Fernando Henrique Cardoso um grande presidente para o Brasil. Primeiro, ele tem um temperamento conciliador; segundo, com a experiência que adquiriu, sobretudo no Ministério da Fazenda, ele pôde captar as mudanças que ocorreram no mundo para formular um plano econômico com grande êxito, aplicado ainda no governo Itamar Franco, e que teve a consolidação no seu. Em terceiro lugar, ele sem dúvida alguma hoje vende a imagem de um Brasil internacional, o que é fundamental não só para a melhoria do conceito brasileiro perante as outras nações, como também para atrair capitais para o nosso país que têm sido indispensáveis na consolidação da estabilização da economia. Ele, sem dúvida alguma, eleva a classe política brasileira, é um homem reconhecido internacionalmente como professor conceituado e como estadista, o que para os brasileiros, sem dúvida alguma, é motivo de orgulho. Então, com o seu temperamento conciliador, tendo todas essas características e realizando um bom governo, espero que ele tenha oportunidade de se recandidatar e, se recandidatando e sendo reeleito, nós vamos consolidar todo o programa de mudanças que o seu governo oferece ao Brasil.  
 
VV- Há poucos instantes o senhor comentava em uma palestra sobre a diferença entre o esforço para se aprovar a reforma do Estado e o esforço para aprovar a reeleição. Um foi conseguido e outro ainda não. Qual a diferença?  
A reeleição é um tema meramente político. Um deputado, quando vai votar um tema como a reeleição, normalmente vota de acordo com as suas convicções políticas, se ele acha que o governante deve ou não ter o direito de se recandidatar. Quando se trata de uma matéria de reforma administrativa, isto envolve muitos interesses de corporações que se organizam, que resistem, que têm voto, que reelegem deputados e, em determinados casos, há alguns deputados que votam inclusive de acordo com o seu interesse. Então, não coincide o governo ter a maioria para uma coisa e necessariamente ter maioria para outra. É claro que, se se dedicar, se trabalhar e se tiver atenção e acompanhar o processo de discussão da reforma, ele poderá aumentar a sua esfera de influência. Mas, evidentemente, uma coisa não tem necessariamente nada a ver com outra.  
 
VV- O Espírito Santo tem pretensão de incluir alguns municípios do norte do Estado, que fazem fronteira com a Bahia, no âmbito da Sudene. O que o senhor acha disso?  
Eu acho, não só no caso do Espírito Santo como também no caso da região norte de Minas Gerais, que isto seria muito bom. O que nós precisamos fazer hoje com a Sudene não é restringir a sua área de atuação mas ampliá-la. Já que é uma área necessária, tem que ter um tratamento especializado. Eu acho que o que se deveria fazer hoje é mudar um pouco a natureza de atuação da Sudene. Sobretudo, o que a Sudene tem que fortalecer é a infra-estrutura da região que ela cobre. Eu acho que isto é que é necessário para que nós possamos ter competitividade, porque nós não temos infra-estrutura. Infelizmente, o poder público deixou aquém o Nordeste. Eu espero que o Espírito Santo, participando conosco, aumente a pressão política no sentido de redirecionarmos a função da Sudene. Eu, pessoalmente, sou favorável.  
 
VV- Como é que o senhor vê a bancada capixaba no Senado?  
Eu disse há pouco em uma entrevista que o Espírito Santo é um Estado de sorte por poder contar com três excelentes senadores. Desses três, dois ex-governadores - o senador Camata e o senador Elcio - e ainda o senador José Ignácio. Todos os três têm experiência administrativa, têm conhecimento da realidade brasileira. Então eu diria que de todos os Estados o que tem hoje uma bancada mais influente no Senado é o Espírito Santo, graças à qualidade dos seus representantes, tanto o senador José Ignácio, o senador Gerson e o senador Elcio ocupando a liderança; o senador Gerson, um ex-governador com passado político muito brilhante no Espírito Santo e, sem dúvida alguma, importante na nossa base política; e o senador José Ignácio, que tem uma experiência também administrativa, já ocupou a presidência da Telebrás, foi senador pelo Espírito Santo e agora ocupa novo mandato pelo PSDB. Isto inclusive dá um casamento partidário perfeito não só para uma aliança, mas para dar respaldo ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Então eu espero que haja reciprocidade do governo em relação aos senadores do Espírito Santo. Também na Câmara nós temos excelentes deputados do Espírito Santo, parlamentares extremamente talentosos que, sem dúvida, contribuem para que nós possamos conseguir um melhor tratamento do governo Federal para as necessidades maiores do Estado. Aliás, dando um exemplo ao Brasil, quando, recentemente, todas as bancadas de deputados e senadores uniram-se em torno das principais aspirações do Estado. Isto, inclusive, no âmbito da Comissão Orçamentária, coisa que não se via há muito tempo no Brasil com tamanho entendimento em função dos interesses de um Estado.  
 
VV- O que o senhor acha do suporte que uma bancada não-petista vem dando ao governo do PT?  
Providencial, uma vez que se o governador Buaiz dependesse de seu partido, certamente estaria em dificuldades grandes, ou melhor, dificuldades maiores (risos).  
 
VV- O senhor participou de uma das atuações mais espetaculares da história do parlamento brasileiro, que foi a votação do projeto de reeleição. Contra o PMDB, que não queria votar, o senhor bancou a votação e garantiu ao presidente que naquela data passaria a matéria, colocando em risco até a sua palavra, o seu futuro, a eleição do Temer, etc. Como o senhor tinha certeza de que aquilo tudo realmente aconteceria?  
Nós trabalhamos durante três meses fazendo uma avaliação semanal com um grupo político que tinha a participação de ministros de Estado, como o Sérgio Motta, o Luiz Carlos Santos e, ainda, de líderes daqueles partidos que compõem a base de sustentação ao governo. Nós sabíamos que, quando chegássemos a atingir cerca de 290 deputados, nós teríamos condição de ganhar a votação, porque o resto viria por gravidade, como a gente chama. Quando chegamos à marca de 290 deputados, nós sabíamos que, se não marcássemos a data, nós não conseguiríamos sucesso. Então marcamos a data. Tudo isso de acordo com o presidente Fernando Henrique  
 
 
POR UMA BRASÍLIA LEGAL  
 
Paulo Octávio - Agosto de 1997- Edição n.º 192  
Entrevista concedida a Celso Mathias e Anand Rao em Brasília - DF
 
 
Ele nasceu na cidade de Lavras, em Minas Gerais, em 13 de fevereiro de 1950, e aos 12 anos aportou em Brasília pelas mãos do pai, funcionário público e conceituado dentista, Cléo Octávio Pereira. Precoce nos negócios, Paulo Octávio Alves Pereira desde os 14 anos começou a ensaiar os primeiros movimentos que o levariam a ser empresário de sucesso. As sementes do forte grupo, no entanto, só foram semeadas em 1976, quando ele fundou a Paulo Octávio Investimentos Imobiliários para administrar e vender imóveis. Decorridos 20 anos, a holding Paulo Octávio Investimentos Imobiliários controla 14 empresas que vão de concessionárias de automóveis a hotelaria, passando pela construção civil, que continua sendo sua principal atividade.  
 
VV - A clássica pergunta: quem é Paulo Octávio?  
- Paulo Octávio é um mineiro que se tornou candango. Eu nasci em Lavras, no sul de Minas, em 1950, e estudei lá. Aos 12 anos, vim para Brasília, aonde meu pai veio exercer uma função pública. E assim, Brasília se transformou em minha cidade.  
 
VV - Qual é a sua formação?  
- Eu fiz durante três anos Economia na Universidade de Brasília e acabei me transferindo para Direito. Me formei na Ceub.  
 
VV - Como é que um advogado trilhou o caminho da construção civil?  
- Tudo começou com uma pequena empresa imobiliária. Eu sempre gostei de ser independente. Então, comecei aos 14 anos a trabalhar com ações. E já que tinha um tempo vago durante o meu período escolar, comecei a vender ações e títulos para os meus professores. Comecei com fundos de ações, na época do boom da bolsa. Depois, passei a trabalhar com imóveis e montei uma empresa imobiliária que fazia corretagem, compra e venda de imóveis. Essa empresa é hoje a Paulo Octávio, que completou em janeiro 20 anos de atividade.  
 
VV - Como é que o senhor explica, na condição de um dos maiores empresários de Brasília na área da construção civil, o seu crescimento do nada ao que o senhor é hoje em apenas 20 anos?  
- Eu acho que o Brasil é o país das grandes oportunidades. Como é que você explica que a empresa do industrial mais poderoso dos Estados Unidos não tenha 20 anos de atividade, que é a Microsoft, com patrimônio de 47 bilhões de dólares? O mundo está em transformação.  
 
VV - Quantas empresas compõem o grupo Paulo Octávio?  
- Hoje nós temos quatorze empresas.  
 
VV - E isso representa quantos empregos?  
- Três mil e quinhentos empregos.  
 
VV - Qual o faturamento do grupo hoje?  
- Em 1997, nós deveremos ultrapassar os 200 milhões de dólares.  
 
VV - Em 1996 foi de quanto?  
- No ano passado foi de 120, 130 milhões.  
 
VV - É um grande crescimento...  
As empresas estão crescendo. A gente estima que vai crescer bastante até o ano 2000. Nós temos tudo programado. Todos os nossos projetos já estão programados para o ano 2000, e já sabemos todos os passos que vamos dar até lá.  
 
VV - O crescimento do faturamento de 120 para 200 milhões em um ano, é um salto grande. Então, quer dizer que, hoje, com a administração de um partido da esquerda, suas relações são tranquilas?  
- Não tivemos nenhum problema com o governo do PT. O governador Cristóvão é muito bem intencionado. Ele mantém uma postura muito séria com a classe empresarial. E o que nós empresários queremos é seriedade.  
 
VV - O senhor disse que a construção civil é o forte da sua empresa, mas o senhor está galopando firmemente em direção à hotelaria. Hoje, o que a hotelaria representa dentro de seus negócios?  
- Hoje, nós temos três hotéis em funcionamento em Brasília. Estamos iniciando a construção de mais dois, e organizando uma grande empresa hoteleira, pois o Brasil está sendo tomado pelas cadeias multinacionais Hilton, Sheraton, Continental, que estão tomando conta do mercado.  
 
VV - Mas o senhor já começa agora se associando a um desses grupos. O senhor não vai fazer um hotel administrado pelo grupo Caesar Park?  
- Nós temos o compromisso de fazer este hotel, um compromisso que já foi feito há algum tempo. A bandeira será realmente a do Caesar Park, mas sem prejuízo para o nosso projeto futuro.  
 
VV - O senhor também está entrando na área de shoppings. O senhor acabou de inaugurar um shopping moderno aqui...  
- Tem dois segmentos que me atraem: shoppings centers e hotéis. Eu acho que a tendência do comércio no mundo é ir para os shoppings, onde você tem segurança, conforto, tranquilidade. No caso de Brasília, ir ao shopping é uma opção de lazer. Você vai a um cinema, a uma lanchonete, vai fazer suas compras, se divertir, paquerar.  
 
VV - O senhor acabou de inaugurar um shopping e já está trabalhando em outro projeto...  
- Nós acabamos de inaugurar um shopping muito bonito aqui no centro de Brasília, que se chama Brasília Shopping, e estamos iniciando a obra de um outro, que se chama Terraço Shopping, num setor em franco desenvolvimento da capital, que é uma área carente. E nosso sonho é terminar um shopping que nós temos em construção no Lago Norte e que está paralisado há algum tempo.  
 
VV - Esse shopping que o senhor vai construir agora é aquele que seria inspirado no shopping de Coco Walk, de Miami?  
- É uma inspiração que vem do Coco Walk. É um shopping muito agradável, um shopping aberto, e em Brasília cabe bem isso, porque aqui chove muito pouco e a cidade é muito ventilada.  
VV - O senhor tem a construção de um shopping interrompida há mais de dez anos e me parece que é um empreendimento que o senhor teria em sociedade com o seu hoje adversário político, o senhor Luiz Estevão...  
- Esse shopping foi paralisado mais por uma decisão da Terracap, que entrou com uma ação de retrovenda pelo não término da obra no prazo apropriado. E, por incrível que pareça, a Terracap ganhou na justiça e teria que indenizar a nossa construção. Mas, como o valor ficou muito alto, ela se omitiu de fazer o pagamento e a obra está paralisada. Nós estamos tentando um acordo com a Terracap para que se resolva o assunto, porque hoje essa paralisação está prejudicando uma comunidade importante, que é a do Lago Norte.  
 
VV - Mas esse empreendimento era uma parceria com o Luiz Estevão?  
- Era uma sociedade entre três empresas brasilienses, inclusive a Paulo Octávio.  
 
VV - Hoje vocês continuam sócios, apesar das divergências políticas e pessoais?  
- Nós temos obrigação de dar um bom termo a esse empreendimento, até porque foi investido muito dinheiro no negócio.  
 
VV - O senhor tem 3.500 empregados. E a sua preocupação social, como é que ela é manifestada diante destes trabalhadores todos?  
- Bom, é uma responsabilidade que cada vez mais os empresários têm que assumir. Hoje nós temos certeza que os salários dessas 3.500 famílias vão chegar em dia no fim do mês. Uma outra coisa que nós temos feito é estimular o desenvolvimento dos funcionários dentro da própria empresa.  
VV - O senhor disse que tem o sonho de governar o seu Estado, a sua cidade. Que projetos de desenvolvimento e sociais lhe passam pela cabeça?  
- Aqui em Brasília nós temos ainda um Estado que é dono de empresas de ônibus, supermercados. É um governo muito patriarcal. Eu acho que o melhor exemplo que o governante tem que dar é o da competência, da eficiência, da dignidade de exercer um cargo sem ter que simplesmente agradar a todos.  
 
VV - O senhor tem o discurso de um privatista convicto, de um homem que pretende ter um Estado com uma função definida, um Estado menor. Se o senhor vier a governar Brasília, quais as principais empresas a serem privatizadas e qual seria a primeira?  
- Nós temos aqui em Brasília uma empresa chamada TCB, de transportes coletivos. É uma empresa que dá prejuízos há décadas. Seria privatizada. Nós temos a SAB, uma empresa de supermercados para a qual não vejo outro caminho a não ser o da privatização.  
 
VV - Pelo que eu conheço da recente história política de Brasília, o senhor foi derrotado na campanha para deputado federal através de uma manobra política do seu principal opositor, o deputado Luís Estevão. E pelo que se sabe, ele tem o mesmo sonho de vir a governar Brasília. E tem um projeto assistencialista. Como é que o senhor pretende enfrentar esse concorrente seu, já que o senhor tem idéias diferentes, mais modernas?  
- Primeiro, eu tenho esperança que a sociedade conheça as práticas políticas obscenas que são praticadas no país. Nós não podemos mais viver num país onde alguém compre um partido e impeça que esse partido faça uma coligação. É o que aconteceu, o que fez esse cidadão com o PRN. Colocou na executiva do partido sete funcionários da sua empresa, impedindo que o partido se coligasse com uma frente mais poderosa. Eu tenho certeza, pode não ser agora, mas com o tempo a sociedade vai saber julgar, para poder separar o joio do trigo, saber quem tem boas e quem tem más intenções. Quem realmente é patriota e quem apenas quer aproveitar. Eu não tenho dúvida nenhuma. Tenho muita seriedade, tranqüilidade, muito tempo pela frente para poder ver que a justiça sempre é feita, mais cedo ou mais tarde. Os políticos populistas não podem continuar enganando a população como o fazem. Até porque hoje em dia, graças a Deus, com essa grande eficiência dos meios de comunicação, da imprensa, da televisão, nós vamos poder chegar na casa de todo brasileiro, seja ele o mais humilde. Então, cabe a nós o futuro político brasileiro, e logicamente um amadurecimento da democracia que estamos vivendo. Esse processo de depuração pode ser lento, mas ele é fatal. Então, quem faz política sem dignidade um dia receberá uma grande trombada.  
 
 
O PASSAGEIRO DO SONHO  
 
João de Mattos - Abril de 1998 - edição n.º 208.  
Entrevista concedida a Celso Mathias em New York - USA
 
 
Nos anos 60, ele amava os Beatles e os Roling Stones, usava cabelos longos, freqüentava os barzinhos da Carlos de Campos, no Pari, e azarava as moçoilas do Braz, bairro de classe média baixa de São Paulo. Hoje, bem-sucedido empresário, morando nos Estados Unidos, controla três agências de viagem, uma empresa de money order, um café brasileiro e um jornal, além de ser o manager da carreira de Raul Boesel. Dono de um faturamento de 65 milhões de dólares só com as agências, ele perdeu a conta dos outros negócios que são tocados mais pelo irmão Francisco, com o qual tem um relacionamento perfeito.  
Conheça um pouco da história de João de Matos, este homem que soube fazer do sonho realidade.  
 
VV - Quem é João de Matos? Conta a sua historia.  
- Eu vim de uma família no Brasil quase comum. Pai português e mãe italiana. Papai era padeiro, tinha uma padaria no Braz, onde eu nasci, na rua 21 de Abril. Éramos de classe média baixa, mas em casa nada nos faltou, até o dia que meu pai morreu e eu comecei a ver as dificuldades da minha mãe para administrar o negócio. Mas, como eu não gostava de trabalhar na padaria, fui trabalhar com um tio que tinha uma agência de viagem. Naquela época havia uma lei que permitia ao cidadão, após viver um ano no exterior, trazer na mudança um automóvel sem pagar impostos. Eu estava vidrado por um Mustang 64, carro que eu vira nuns folhetos americanos. Aí eu meti na cabeça que, custasse o que custasse, iria para Miami, ficaria um ano e traria o meu Mustang na bagagem. Como na agência de viagens do meu tio eu havia me especializado em documentação para passaportes e vistos, rapidamente providenciei o meu e fui ao Consulado Americano querendo um visto de turista. Aí, o cara do Consulado disse que eu teria que viajar com visto de imigrante uma vez que pretendia trabalhar para comprar o carro. Aí foi um Deus-nos-acuda, eu querendo visto de turista e ele querendo me dar visto de imigrante.  
 
VV - O fato de ser brasileiro atrapalhou ou ajudou a sua trajetória aqui nos Estados Unidos?  
- Eu não sei se ajudou ou atrapalhou. Sei que americano não gosta de latino que fala espanhol. Eles pensam que é tudo a mesma coisa. Eu sempre procuro explicar que sou brasileiro e no Brasil se fala português. Esclarecido isso, as coisas sempre ficam melhores.  
 
VV - Bom, então você desembarcou aqui em que ano?  
- Desembarquei em 65, e comecei a trabalhar no próprio aeroporto de Miami onde dirigia um caminhão de uma companhia que prestava serviço de cozinha para os aviões. Eu, alucinado por carro, ficava empolgado em dirigir aqueles caminhões que se elevavam até os aviões para supri-los de comida. Numa dessas, eu não posso esquecer, ao entrar no avião, dei de cara com nada mais nada menos que John, Paul, George e Ringo, os Beatles. Eles estavam no auge do sucesso e eram meus ídolos. Eu quase caí do avião ao avistá-los.  
Depois de seis meses que estava em Miami, a lei mudou no Brasil e o carro só poderia ser levado após cinco anos. Aí eu falei, não vai dar mesmo para eu ficar cinco anos longe do meu país. Resolvi então, antes de vir embora, conhecer Los Angeles e peguei um automóvel de uma família que estava de mudança e precisava transportar o carro. Em Los Angeles, encontrei uma família de ex-combatentes que era louca por brasileiro. Eles me adotaram quase como filho. Lá, o meu emprego foi numa fábrica de isopor. Em Los Angeles, eu freqüentava uma casa famosa chamada Whisky-a-gogo, onde conheci muita gente do show biz e tomei muitas cervejas com Johnny Riveres e com o pessoal do The Doors.  
 
VV - Custava quanto um Mustang naquela época?  
- Custava três mil e setecentos dólares. Eu nunca esqueço, e com ele freqüentei muita corrida, fui à pista de River Side, conheci feras como Jimmy Clark, James Hill... Eu ficava nos boxes olhando aquele pessoal todo e ficava fascinado. Depois dessa época, minha mãe esteve em Los Angeles e eu voltei com ela para o Brasil. Fiquei um tempo, voltei para Miami, em seguida para Los Angeles e, finalmente, vim para Nova York.  
 
VV - E qual foi a primeira atividade aqui em Nova York?  
- Eu conheci o Benito Romero, que tinha uma agência de passagens. Mas a primeira atividade mesmo foi como motorista de táxi. Antes, eu tentei ser motorista de limousine, mas quando o cara me perguntou no teste se eu conhecia Nova York, eu disse que sim; mas quando me perguntou o que dividia o East do West, eu respondi que era o rio. Claro que fui reprovado, porque o que faz esta divisão é a Quinta Avenida. Aí eu fui trabalhar num táxi à noite, e durante o dia vendia passagens com o Benito.  
 
VV - A BACC foi aberta em que ano?  
- Foi aberta em 75, há 24 anos.  
 
VV - Mas isto você abriu em sociedade com o Benito, não? Ou era só você?...  
- Não, o Benito tinha uma parte na Passaporte Tours, mas eu comprei a parte dele. Aliás, comprei uma parte que não tinha nada.  
 
VV - O que é a BACC hoje?  
- A BACC é uma agência de viagem que se dedica ao mercado brasileiro, comunidade brasileiro-americana. Paralelamente, eu abri a Brazilian Travel Service, que é uma companhia emissora que vende bilhetes aéreos no atacado para todas as outras agências de viagens nos Estados Unidos e no Brasil, para aquelas companhias que querem bons negócios.  
 
VV - Quer dizer que a menina dos seus olhos nesta área hoje é a BTS?  
- A Brazilian Travel é uma criança que estou vendo nascer. Quer dizer, já existe há 12 anos, mas só agora está tomando rumo, porque o Brasil começa a resolver o seu problema de imagem aqui no exterior.  
 
VV - Você, além da área de viagens, tem outros negócios hoje. Você tem o Empório, que é um....  
- O Empório Brasil é um ponto de brasileiros.  
 
VV - Encontro dos brasileiros na rua 46, onde se lê um jornal, toma-se um café, etc. Mas, além do Empório, você também tem agora, em sociedade com o Luiz Gomes, o Plataforma e o jornal "The Brazilian"...  
- Tenho o jornal "The Brazilian", que foi fundado há 23 anos pelo J. Alves, sendo inclusive o mais antigo jornal de brasileiro na América. Eu o comprei há 15 anos.  
 
VV - Com essas suas empresas, hoje você gera quantos empregos?  
- Eu calculo que em todos os meus escritórios (Nova York, Manhattan, Queens, Rochester, Boston, Nova Jersey, Miami, São Paulo e Rio) devemos gerar de 230 a 240 empregos, sem contar o Plataforma, lógico.  
 
VV - O Plataforma tem quantos empregados?  
- No Plataforma temos uns 75 empregados.  
 
VV - Direta ou indiretamente você abre postos de trabalho para 300 pessoas, entre os Estados Unidos e o Brasil?  
- Acredito que com o Plataforma e o Empório cheguemos a uns 320 empregos.  
 
VV - Você realizou um pouco do seu sonho de piloto, através do Raul Boesel, do qual você é o menager aqui nos Estados Unidos. Como é essa relação com o Raul Boesel? Como começou e como está?  
- Começou em 82. Eu estava no Grande Prêmio de Fórmula 1, em Long Beach. Eu já conhecia o Emerson, o Piquet eu conhecia mais ou menos, e o Raul, era o primeiro ano dele. Raul estava na antiga March. Eu o conheci e achei ele um cara muito simples, batemos um papo rapidamente. No dia da corrida ele me procurou. Ele estava com a esposa, a Vera, e eu com minha esposa...  
 
VV - Você hoje ganha algum dinheiro com esta atividade com o Raul ou é só amor mesmo?  
- É amor. Bom, mas eu ganho indiretamente pois vendo muitas passagens. Os pilotos só compram comigo.  
 
VV - Ah, você ganha paralelamente...  
- Paralelamente. Eu faço muita coisa, minha agência é a agência oficial. Todos os vistos de passaporte do grande prêmio do Brasil de Fórmula Indy são feitos por mim. Eu faço tudo, tenho a ficha de todo mundo.  
 
VV - Como é essa sua atividade de promoteur do Brasil? Você conseguiu a façanha de trocar o nome da Rua 46 para Litle Brazil e hoje é o dono da marca Litle Brazil. Conta um pouco sobre a festa que você organiza anualmente em comemoração à Independência do Brasil...  
- Meu maior orgulho foi no dia que o prefeito de Nova York assinou a lei trocando o nome da Rua 46 para Little Brazil Street. A placa Little Brazil Street entre a Quinta Avenida e a Times Square vai ficar para sempre. Eu e meu irmão Edilberto Mendes, que é o editor do jornal "The Brazilian", travamos uma batalha de três anos, desde o pedido até tudo ser aprovado por unanimidade pelas as autoridades.  
 
VV - Você acha que a Embratur faz um trabalho bom por aqui para divulgar o Brasil?  
- A Embratur tem hoje à sua frente o Caio, que é um cara que conhece bem o turismo. Acontece, porém, que para que haja retorno é preciso investimento. Qualquer ilhota do Caribe tem U$ 50 milhões para investir no mercado americano de turismo. E o Brasil?  
 
VV - 17 milhões este ano...  
- Hoje dizem que o Brasil está com 17 a 20 milhões, não sei. Então, espero que realmente algo seja feito, porque não adianta você querer promover o Brasil aqui se tem coisa errada lá no Brasil.  
 
VV - Bom, do Mustang 67 ao João de Matos de hoje, você se sente um homem realizado do ponto de vista financeiro e do ponto de vista pessoal?  
- Completamente. Tenho uma família, minha filha maravilhosa, meu irmão - a coisa que eu mais adoro no mundo é meu irmão -, meus amigos, eu tenho muitos amigos. Então, eu me sinto realizado em tudo o que fiz. Se tivesse que viver tudo outra vez, faria tudo de novo  
 
 
A maior autoridade mundial na área de cassinos, amigo de milionários, estrelas do jet set internacional como Anthony Quinn, ator que celebrizou-se no papel de "Zorba, o grego", com vocês,  
 
CIRO, O BRASILEIRO  
 
Ciro Batelli - Novembro de 1998 - edição n.º 222.  
Entrevista concedida a Celso Mathias em Las Vegas -USA
 
 
Desde dezembro de 1988, o brasileiro Ciro Batelli, 62 anos, vive em Las Vegas, nos EUA, com a família. Ao contrário de muitos patrícios, esse advogado paulista não foi tentar a sorte na América do Norte. A sua mudança deveu-se ao convite do grupo Caesar, onde passou pelos cargos de diretor, assistente do vice-presidente e vice-presidente. Hoje, é presidente de uma empresa da área de consultoria de cassinos, a Mr Vegas International.  
 
VV- Uma pessoa conhecida internacionalmente, um executivo da área de cassinos e hotéis. Quem é, afinal, Ciro Batelli?  
- Sou caipira de Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo. Fiz curso primário no Rio de Janeiro e ginasial, clássico e superior na capital paulista. Sou filho único de família classe média. Naquele tempo existia classe média, não sei se o seu leitor de hoje vai reconhecer essa figura, que está em extinção na América Latina. Meu pai era funcionário da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.  
 
VV- Fale sobre sua trajetória, até chegar ao executivo da Caesar nos EUA.  
- Me formei em Direito. Morava em Guarujá, São Paulo, e trabalhava em hotelaria, na função de diretor social do Delfim Hotel Guarujá. Mas, desde meu tempo de solteiro, vinha a Las Vegas durante as férias. Tinha um grande interesse por esse marketing, por essa parafernália, por essa cibernética dessa cidade, por esse magnetismo e sempre me interessei por estatística.  
 
VV- Como se deu a sua incursão na área de cassinos?  
- Em 1982, recebi um telefonema de Ricardo Roman, que é dono do Delfim Hotel de Guarujá, me comunicando que ia ter uma semana de estudos na Federação do Comércio do Estado de São Paulo sobre legalização do jogo e de cassinos no Brasil. Resolvi participar, mas antes, parei na United States Information Service, um órgão do consulado americano e atualizei as minhas estatísticas sobre o assunto.  
 
VV- E como foi a sua participação no evento?  
- Fui anotando o pronunciamento de várias pessoas, inclusive de um colega meu, procurador, contrárias aos jogos. Tenho mania, em toda palestra ou conferência que freqüento, de anotar as objeções e discordâncias que eventualmente tenho sobre o tema abordado. No intervalo dos debates, Ricardo Roman me apresentou ao mestre-de- cerimônias, o radialista e advogado Cesar Monte Claro. Para surpresa minha, ao serem os trabalhos retomados, Cesar anunciou meu nome e me chamou ao pódio.  
 
VV- E então?  
- A partir das anotações que havia feito, comecei a fazer algumas reparações às informações dadas pelos expositores, mostrando as fontes oficiais. Por ter esse hobby e estar preparado, fui muito feliz na apresentação. Caí na simpatia da platéia, em torno de 400 pessoas, e recebi muitos aplausos. No dia seguinte, o secretário de Turismo do Estado de São Paulo me convidou para sentar e compor a mesa até o encerramento dos trabalhos. Alguns prefeitos, secretários de turismo e jornalistas presentes acharam que, se fosse formada uma comissão com vários segmentos da sociedade, causaria maior repercussão. Assim, foi fundado o Comitê Nacional para Legalização dos Cassinos do Brasil. Por aclamação, fui por três gestões presidente desse Comitê. Hoje sou presidente de honra.  
 
VV- Qual o resultado da participação do Caesar no congresso?  
- Logo depois do final do congresso, que foi um sucesso, pediram-me que lhes apresentasse alguém para ser representante deles no Brasil. Tinha alguns agentes de viagem presentes e comecei a apresentar um e outro. Depois de meia hora, me chamaram e me disseram: "O senhor não entendeu, nós demos a sugestão pensando que iria se oferecer. Vamos ser mais diretos, nós gostaríamos que o senhor nos representasse aqui no Brasil". Em julho de 1983, dei início ao preenchimento da papelada para obter licença, que envolve uma investigação de 20 anos de vida pregressa, é um rigor tremendo, como tem que ser. Em outubro, recebi um telefonema avisando que tinha sido aprovada a minha licença pelo Cassino Control Comission de New Jersey e que eu podia providenciar a festa de apresentação. Então preparei uma festa, que aconteceu no Gallery, em São Paulo, e outra em Atlantic City. Os negócios foram crescendo, era uma época progressista no Brasil e logo depois recebi convite para representar a corporação Caesar. Em 1986, todo mês eu viajava para a Europa, Atlantic City e Las Vegas, e levava minha mulher e minha sogra. Certa vez, quando cheguei no Caesar Palace, em Las Vegas, havia um recado que Terry Zanni, presidente da Caesar World Corporation, queria jantar comigo. Nesse jantar, recebi o convite para me mudar para os EUA e assumir como diretor do Caesar de Atlantic City.  
 
VV- Você aceitou de imediato?  
- Só pedi um dia de espera, para buscar minha sogra. Se minha sogra viesse, tudo bem, todo mundo ia estar feliz. Minha sogra topou. Disse à minha mulher que tirasse as crianças da escola já e as colocasse numa aula de inglês, porque íamos nos mudar para os EUA.  
 
VV- Você é um brasileiro que, ao contrário de muitos, não veio para cá em busca de trabalho. Veio oferecer, vender o seu know how para os americanos. Fale de sua trajetória dentro do grupo.  
- Não vim vender. Eles é que me compraram. Modéstia à parte eu não tinha tanto know how assim, o know how está aqui. Comecei como diretor, seis meses depois era assistente do vice-presidente, seis meses depois era vice-presidente de Latin American Operations. Morei um ano e meio em Atlantic City, até que recebi o convite para ser vice-presidente executivo da Corporation Las Vegas. Em dezembro de 1988, nos mudamos para Las Vegas. Aí, depois de três anos, recebi outra promoção, que era Senior Executive Vice-Presidente. Foram anos maravilhosos, de muita aprendizagem, dedicação e trabalho. Na volta de uma viagem que fiz com o chairman da Sodak Games, Mike Woderman, ao Brasil, ele me convidou para assumir a presidência da Sodak Games International.  
 
VV- Que vantagens lhe ofereceram?  
- Me ofereceram muito mais vantagens, mas a vantagem financeira não veio ao caso. Acho que o bom executivo não pula muito por interesse de dinheiro. O argumento que me pegou foi ter mais tempo para me dedicar à minha família, à minha mulher, meus dois filhos e à minha sogra. Conversei com minha mulher, nós dois aceitamos e assumi a presidência da Sodak International Games. Há um mês (em setembro), o grupo Mr Vegas International comprou a Sodak International Games. E eu fui ser presidente da Mr Games International.  
 
VV- Você foi pra a Sodak como presidente contratado. A Mr. Vegas, da qual você é acionista, comprou a empresa da qual é presidente executivo. Então, você comprou o seu emprego?  
- Comprei o meu patrão (risos).  
 
VV- Mr. Vegas era seu apelido, não?  
- Mr. Vegas foi um apelido que me foi dado por um jornalista da revista "Manchete", há muito tempo atrás.  
 
VV- Se o Congresso aprovar a abertura de cassinos no Brasil, qual seria o impacto desse ato numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, no que diz respeito, além da geração de impostos, à marginalidade e ao tráfico?  
- Eu acho que a marginalidade, eu não digo na sua totalidade, mas em grande parte, é devida ao desemprego. O desemprego leva à marginalidade, à criminalidade, à miséria. Com uma oferta de trabalho você, forçosamente, vai pagar esse tributo social.  
 
VV-Como se explicam a ascensão dos cassinos americanos e das ilhas e a decadência da rede de cassinos européia, incluindo o Cassino de Monte Carlo, que já foi um símbolo do segmento?  
 
- A operacionalidade. Os cassinos americanos são todos de iniciativa privada. A maioria dos cassinos europeus é do governo e os que não estão nessa categoria são muito sacrificados por regulamentações esdrúxulas. Um exemplo é o código de vestimenta. Em pleno verão, na Espanha, os cassinos só permitem a entrada de homens com paletó e gravata. Além disso, o cliente tem que se identificar na porta, mostrar passaporte, pagar entrada. Isto está completamente superado. Outro agravante é a gula tributária. Altos tributos impedem que os grandes grupos de cassinos exerçam a sua atividade.  
 
VV- Que grandes projetos a Mr. Vegas está desenvolvendo?  
- Nós representamos e agora vamos ser distribuidores da maior fábrica de fichas de cassinos do mundo. Também estamos atentos a várias localidades brasileiras, na eventualidade de se legalizarem cassinos no país. Devo estar no Brasil em breve, para assinar cartas de intenção com vários grupos proprietários de hotéis que querem desenvolver isso. Vamos dar consultoria a vários deles. Independentemente da Mr Vegas, sou representante também de outros grupos americanos que estão com interesse de desenvolver operações no Brasil. Então, nós prestamos assessoria a esses grupos e estamos ainda com projetos na Argentina e no Paraguai, onde deve ter agora concorrência uma pública. É um hotel-cassino em Assunção.  
 
VV- Nesses 13 anos de EUA, você adotou o american way of life?  
- O american way of life é muito bom, adotei bastante isso, mas com um jogo de cintura brasileiro. O jogo de cintura brasileiro me ajudou muito na carreira e isso eu não quero perder. Se eu puder transmitir aos meus filhos, com muito prazer o farei. O americano é muito bom, técnico e objetivo, mas não tem jogo de cintura nenhum.  
 
VV- Tenho observado que você usa muito as palavras muito obrigado, por favor, com licença, senhor. Que contribuição essa polidez deu para o seu sucesso na vida?  
- Há três palavras-chave na minha carreira nos EUA. Foram as três primeiras palavras que aprendi em inglês e em todos os idiomas: por favor, muito obrigado e me desculpe  
 
 
FEITO CONCRETO  
 
Carlos Carneiro Costa - Outubro de 1999 - edição n.º 245.  
Entrevista concedida a Celso Mathias em Belo Horizonte - MG
 
 
O espírito empreendedor ele desenvolveu ainda criança quando trocava gaiolas e estilingues com os colegas da escola. E é com a criatividade e imaginação de quem não perde a capacidade de sonhar, que ainda hoje planeja novos empreendimentos. Mas é com o jeito cauteloso do mineiro e com o cuidado nas análises de todo os detalhes de um grande investimento, que ele aprendeu na engenheira, que realiza seus negócios. Assim pode ser rapidamente definido o fundador e presidente do Grupo Líder, Carlos Carneiro Costa.  
 
VB - Vamos falar um pouco sobre Carlos Carneiro Costa. Conte um pouco de sua história.  
- Eu nasci na pequena cidade mineira de Dores do Indaiá. Foi lá que fiz os primeiros estudos. Depois fui para Araxá concluir o primeiro grau e vim para Belo Horizonte fazer o científico. Fiz Engenharia em Juiz de Fora.  
 
VB - Você estudou num colégio interno?  
- Foi em Araxá. Lá, aprendi um princípio que mantenho até hoje: "Faça bem feito o que estiver fazendo". Esta era a regra número um da escola.  
 
VB - Você é filho de família abastada? Qual sua origem?  
- Meu pai era gerente do Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais) na minha cidade. Dava para ele manter os filhos no colégio. Só não dava para sobrar. Era político também. Foi um dos primeiros Udenistas de Minas Gerais e chegou a ser prefeito da nossa cidade. Era da famosa velha guarda. Ele foi muito trabalhador. Quando eu fazia o científico, nós montamos juntos a indústria de doce de leite.  
 
VB - Quer dizer que sua habilidade empresarial começou desde o segundo grau?  
- Começou no primário. Desde pequeno já fazia meus negócios. Até meus colegas de grupo se lembram disto. Trocava gaiola, estilingue, vendia fruta.  
 
VB - Você chegou a ser presidente de grêmio estudantil, participou de movimento estudantil?  
- Não. Isto não. Toda a minha vida me dediquei a estas coisas, mas nunca fui presidente de nada. Um exemplo: na faculdade de engenharia não tinha cantina. Eu montei para o grêmio uma cantina. Mostrei para eles que os alunos tinham que ir a um boteco próximo para lanchar. Ainda no quarto ano de engenharia, fiz meu primeiro prédio associado com outros colegas e mostrei que o negócio era bom.  
 
VB - O que você faz hoje de diferente daquilo que você fez quando construiu o primeiro prédio em Juiz de Fora em sociedade com os colegas da escola?  
- Este primeiro não tinha nada. Eram quatro apartamentinhos de 60 metros quadrados. Eram só dois pavimentos. Isto foi no ano que a gente estava acabando o curso. Construção diferente mesmo foi quando nós, eu e minha mulher, começamos a entregar nossos projetos de apartamentos diferenciados. Com portaria decorada, que ela fazia. Com azulejos que ela escolhia com seu bom gosto. Com cores combinadas. A técnica era mais apurada.  
 
VB - Como você conheceu a Scheila?  
- Esta é uma longa história. Eu a vi pela primeira vez em uma festa em Juiz de Fora. Ela era muito bonita e quando ia chamá-la para dançar ela já tinha ido embora. Depois disto se passaram dois anos sem que eu a visse. Aqui em Belo Horizonte nos reencontramos. Eu nem pensava que fosse ela, afinal só a havia visto uma vez em uma festa e não dá para guardar a fisionomia assim tão rápido. Mas fui dançar com ela e estou dançando até hoje.  
 
VB - Quando ela começou a participar dos projetos?  
- Ela começou a atuar uns quatro ou cinco anos depois de casados. Antes disto, fomos tendo filhos, um após o outro e não dava para trabalhar. Assim, quando ela teve um tempo nós começamos a trabalhar com um produto diferenciado.  
 
VB - Qual a contribuição dela neste processo?  
- É nesta parte de decoração. Ela tem um gosto muito apurado. Nós começamos a fazer apartamentos com portarias decoradas o que não era feito em nenhum lugar do Brasil na época. Eram apartamentos com armários embutidos. Nós sabíamos que o cliente iria gastar nisto depois de comprar o imóvel e pensamos que fazer os armários em uma escala de produção maior, fica muito mais barato. A gente entrega tudo limpo, tudo pronto. Fica com melhor qualidade.  
 
VB - Você tem uma rotatividade menor do que a maioria das construtoras?  
- Eu me preocupo com isto. Por exemplo, sempre tenho um prédio pintando para uma turma. Sempre tenho um prédio em fundação para outro pessoal. Tem outro prédio fazendo serviço de carpintaria, de bombeiro. Tenho bombeiro que está conosco há mais de 20 anos.  
 
VB - Você diz que parou de contar quando construiu o prédio de número 200. E metros quadrados, você tem noção de quantos produziu ao longo destes anos?  
- Hoje, pelo último cálculo que fiz, temos construídos 1,420 milhão de metros quadrados de apartamentos classe média. Fazer isto em um conjunto do BNH é fácil, mas fazer em alto padrão é difícil.  
 
VB - Você constrói hoje em Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e Cabo Frio?  
- Hoje não estamos mais em Cabo Frio. Fizemos lá tudo o que se vê de mais bonito. Nós fizemos o calçadão, uma praça muito grande que quase se confunde com a praia. Na realidade são três praças que têm os nomes de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e engenheiro Carlos Carneiro Costa.  
 
VB - E você pensa em fazer negócio no Espírito Santo?  
- Para falar a verdade, qualquer negócio a gente pode conversar. Nossos negócios feitos fora daqui são muito de parceria. A gente precisa de um apoio local.  
 
VB - Entregar antes do prazo previsto também é uma característica da construtora Líder?  
- Nós nunca atrasamos uma obra. Mas normalmente não antecipamos porque, em geral, o cliente fica preocupado em ser convidado a pagar a parcela da chave antecipadamente.  
 
VB - Mas eu já li uma declaração sua de que quanto mais rápido se entregar uma obra é melhor?  
- Eu falo isto sempre. O que quero dizer é que se o prédio está dando um resultado positivo quando mais rápido você entregar é melhor. Mesmo se o prédio está caminhando para um resultado negativo, quando mais rápido ele for entregue é melhor.  
 
VB - Eu já vi uma declaração sua falando que a indústria da construção não dá lucro. Mas você não pode dizer que teve prejuízo em seu negócio porque senão sua empresa não estaria do tamanho que está. É este negócio de mineiro que trabalha quieto?  
- Mineiro é conhecido. Não há dúvida que ele esconde o jogo. (risos)  
 
VB - Mas como você pensa que pode esconder 2,5 mil empregos diretos, mais de 200 prédios entregues e 1,5 milhão de metros quadrados construídos?  
- No meu espírito de empresário nada é realmente meu. Na verdade, tudo está comprometido com novos investimentos. Não sou só eu quem faz isto tudo. É um grupo de engenheiros, advogados, jornalistas, economistas, corretores Isto é uma corporação.  
 
VB - Sobre shopping centers. Como você analisa este tipo de empreendimento?  
- Ele deve ser em primeiro lugar bom para o público. Se a pessoa não gosta, ela não volta. As lojas precisam ser bonitas, atualizadas e com preço acessível. Pode-se oferecer conforto, ar condicionado e tudo, mas o lojista também tem que fazer a parte dele. A gente tem que saber também escolher os lojistas corretos. É preciso escolher os profissionais do ramo. Hoje em dia está mais do que patenteado que o lojista profissional é que é bom para um shopping.  
 
VB - Como você vê o futuro de sua empresa. Como você trabalha a questão da sucessão?  
- Estou colocando meus filhos para trabalhar. Construção só se aprende fazendo. A pratica se confunde com a teoria.  
 
VB - Como você chegou a Brasília?  
- Eu sempre tive vontade de construir lá, mas nunca tinha tido uma oportunidade até ganhar a primeira licitação. A partir daí, fizemos diversas parceiras para construir mais prédios. Isto aconteceu praticamente de dois anos para cá. O primeiro lançamento tem cerca de um ano e dois meses. Hoje tenho lá 10 prédios em construção. São três comerciais, dois flats e cinco residenciais.  
 
VB - Somando todas suas obras, quantos imóveis você tem hoje em construção?  
- São cerca de 30 obras.  
 
VB - Você tem hoje quatro shopping centers sendo construídos. Onde eles estão localizados?  
- Tem o de Governador Valadares que será inaugurado em dezembro. Tem o Bigshopping, em Contagem. O Minascasa e o Minas Shopping, em Belo Horizonte. Estes três estão prontos. Nós só administramos dois deles. Nosso negócio não é administrar shopping e sim construir.  
 
VB - Os flats que estão sendo construídos em Brasília e Belo Horizonte são uma porta para entrar na área de hotelaria?  
- Nós estamos estudando o modelo. Os flats hoje são praticamente hotéis. Aquele conceito antigo de flats com cozinha e tudo mais está desaparecendo. Na verdade hoje eles são hotéis. O que se compra é um quarto de hotel que é 100% administrado por uma empresa. Esta é a tendência que estamos experimentando.  
 
VB - Em 1990 você recebeu o título de Engenheiro do Ano. O que isto representou para você?  
- Eu fui o primeiro engenheiro da iniciativa privada a receber o título. Antes eram só grandes nomes ligados às estatais, como Aureliano Chaves, que ganhavam. Eles eram os engenheiros em maior evidência. Eu fiquei muito feliz de ser lembrado.  
 
VB - Para encerrar, me fale uma grande alegria e uma grande tristeza de sua vida?  
- Grande tristeza acho que é perder a mãe e o pai. A saúde, a família, a empresa são grandes alegrias, apesar das minhas broncas de vez em quando.  

  
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